Da Importância da Tipologia na Historiografia

Ou da impossibilidade de ser neutro ao fazer história

Esse texto não tem como pretensão definir se história é ou não uma ciência, acreditamos que essa discussão está ultrapassada há, pelo menos, 70 anos. Jacques Le Goff em História e Memória define bem ao dizer que a história sofre ao ter mudado a sua natureza mas manteve o nome que Heródoto, Tucídides e Tácito lhe deram e ajudaram a aprofundar. Estamos, aqui, entrando numa discussão basal daquilo que é um dos fundamentos da ciência histórica: a tipologia, ou seja, a forma pela qual conceitualizamos algum processo, episódio, processo, cargo, entre outras formas retóricas. Basicamente a tipologia  vai definir ideologicamente o historiador no campo retórico. Para fechar a ideia que a ciência histórica tem, pelo menos nas línguas latinas, um problema com a manutenção de seu nome da Antiguidade, Vico, o bisavô da historiografia como entendemos hoje, poderia ter proposto um nome que ajudasse nessa distinção, minha humilde sugestão poderia ter sido adotado o nome de historiologia, tal termo separaria a ciência histórica da narrativa histórica, confusão comum e que basicamente ocorre no campo público do debate histórico. 

Antes de entrarmos na discussão em si da tipologia e sua importância, temos que nos responder: afinal, o que uma sociedade, uma cultura, uma civilização, espera de seus historiadores?

Já tratamos mais aprofundadamente do papel do social historiador – você poder ler os artigos clicando aqui e aqui, porém precisamos expor aqui a função social esperada de nós, historiadores, pelo meio social na qual estamos inseridos. Há uma frase, repetida aos quatro ventos, e batida por uma certa falta de juízo crítico, que de certa forma sintetiza a nossa função enquanto cientistas sociais: “A função do historiador é relembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer”, essa célebre, em amplo sentido, sentença do britânico Peter Burke mostra uma das nossas facetas sociais, porém não é apenas a voz da consciência, uma espécie de Grilo Falante, que se espera do historiador.

Na história infantil Pinóquio o personagem do Grilo Falante é uma clara alusão à consciência do personagem título, sempre mostrando os pontos falhos de Pinóquio e os seus erros éticos.

Talvez a mais deseja função é a aquisição de consciência histórica, ou seja, a informação que distingue o tempo presente do tempo passado, criando assim um fluxo temporal contínua que possibilite o meio social entender os processos históricos nos quais ele está inserido, entendendo suas continuidades e descontinuidades. Ou seja, para se entender o hoje precisa virar o pescoço para trás mas sem jamais perder os pés do chão.

Dessa forma um historiador inserido e consciente socialmente busca um não apagamento dos episódios pretéritos e busca criar um contínuo temporal escrutinando um entendimento pelos quais os processos formativos e significativos pelas quais a sociedade sempre se lastreia ao se definir e se distinguir de outro grupos humanos. O processo histórico é elemento formativo e normativo de toda sociedade humana, aliás é difícil sequer imaginarmos uma sociedade fora da história, fora do processo histórico, afinal até o mito tem uma função histórico, exemplar e muitas vezes acríticas, mas ainda assim essa função está plasmada na sua própria essência.

Aos historiadores recaem então fazer essa distinção de o que seja o presente daquilo que foi o passado, e como se dá relação entre um e outro, e como um acaba por moldar o outro: o presente é um reflexo do passado assim como o passado é um objeto significado pelo presente. Ao distinguir esses dois tempos o historiador acaba por apresentar para a sociedade, dentro do seu próprio processo histórico, aquilo que se manteve, que se herdou, daquilo que se rompeu, daquilo que se perdeu. Assim ser historiador é uma tarefa carregada em si de enorme peso social e político, e talvez isso explique o quanto regimes autoritários não prezam tanto assim por seus historiadores, ao menos os não alinhados.

Com o exposto podemos pensar em termos tipológicos a partir de agora. A ciência histórica é, antes de mais nada, uma ciência da retórica, afinal é pelo discurso e no discurso que se encontra a dita verdade histórica. É no discurso que o debate e o estudo das relações simbólicas e políticas do presente e do passado se dá. Não existe ciência histórica fora do discurso, isso é uma quimera, ou seja, dentro da história tanto aquilo que se expõe e como se expõe tem uma equivalência, e são fundantes da própria ciência. Agora devemos nos perguntar: é possível se comunicar sem fazer algum tipo de recorte?

A realidade material é impossível de ser captada, assimilada, compreendida e transmitida em sua totalidade, afinal há inúmeros elementos e complexidades que envolvem esse processo que transcendem a própria capacidade humana. Fora a própria visada à realidade altera a mesma: a materialidade percebida por mim, com meus predicados, não é exatamente a sua perceção, querido leitor. Um exemplo típico, dentro da ciência histórica, é criação do fato histórico: ao descobrir, ou interpretar, um fato pretérito, o historiador ao mesmo tempo descobre e cria um passado.A ciência histórica se apresenta então como uma ciência discursiva e profundamente carregada do princípio da incerteza de Heisenberg.

Not this Heisenberg

Dessa forma a vivência, as ideias, o alinhamento ideológico, de quem se propõe a fazer uso da retórica acaba por moldar o discurso a ser empregado quando nos comunicamos. É por conta desse recorte, desse viés, é que cai por terra qualquer tipo de neutralidade quando do fazer histórico. E mesmo que você tente observar e analisar toda a realidade por todos os recortes possíveis, a materialidade teria que dispor um aleph – para entender essa referência sugiro a leitura de Borges, porém estamos muito distantes de conseguir se quer resvalar nessa condição.

No contro O Aleph, Borges descreve um ponto onde todos os pontos do universo conseguem ser vistos ao mesmo tempo

Portanto o recorte e a parcialidade constroem o discurso histórico pois o historiador com a sua metodologia se dispõem do primeiro e de sua ideologia – que age como óculo para o entendimento da realidade – para conseguir fazer, escrever e entender a história. Dessa forma ao se utilizar de uma espécie de tipologia, por exemplo chamar o mesmo episódio de Conquista ou Descoberta, o historiador toma partido, toma um lado, ele plasma em seu texto a percepção da realidade e sua interpretação da mesma.

Por conta da retórica a ciência histórica se propõe para além de informar, e de se certa forma entreter, seu público ela busca o convencimento da veracidade intrínseca em si mesma, cativando corações e mentes. Mais um motivo pela qual a ideologia, o discurso, a veracidade, caminham aproximados, entretanto apesar da impossibilidade de se buscar a neutralidade discursiva o historiador não de se furtar de buscar, analisar e lançar luz sobre a verdade histórica. A ideologia não deve servir para construir a verdade, e sim o inverso, extremamente o inverso, a verdade deve ajudar a construir a ideologia, como bem nos lembra um certo filósofo de Trier.

Um certo filósofo de Trier

Esse apreço a verdade e à materialidade deve pontuar o trabalho produzido pelo historiador, mesmo a história sendo uma ciência da retórica o historiador não deve inventar fatos, ele deve analisar os fatos e dos fatos fazer a sua análise e nessa conter a tipologia que melhor se adequar ao seu método. É sempre bom lembrar que método, ideologia, teoria e tipologia caminham de mãos dadas no percurso do historiador.

Por conta de suas particularidades retóricas e metodológicas, o discurso na ciência histórica ocupa lugar central, assim os objetos investigados, as análises e os resultados das pesquisas passam, necessariamente, pela tipologia e pela escolha de quais palavras vão fazer parte no vocabulário do historiador. Vejam um historiador utilizando-se de referencial teórico pós-colonial tratar o outubro de 1492 como “descoberta” ao invés de “conquista” estará ocorrendo, por definição, em uma incoerência, da mesma forma que um neopositivista inverter a tipologia acima.

Essas pessoas estão sendo descobertas ou conquistadas?

A tão comentada, o Santo Graal daqueles que negam a ciência histórica, “neutralidade”, ou “dar ouvido aos dois lados”, na ciência histórica  se torna tão impossível quanto absurda, sendo um absurdo teórico, metodológico, epistemológico e prático. O fazer pelo qual o historiador tem pensamento crítico como base de sustentação, ao divisar o historiador não parte uma neutralidade discursiva, como vimos método e ideologia caminham lado a lado, sem se tratando de história. Ao reviver o passado, e devassá-lo por seu crivo epistêmico, o historiador instrumentaliza o discurso com uma tipologia que alie esses elementos expostos. Esse é o ofício, esse é o fazer.

E para os neófitos é aqui, justamente no cerne da questão, onde somos tachados de enviesados, puros ideólogos, doutrinadores e outros disparates. Não que não existam historiadores que os sejam, e isso transcende o alinhamento político, não devemos cair nas garras do corporativismo tachanho. Finalizando, devemos nos perguntar: o barro primordial do historiador, as fontes e documentos, não são neutros por natureza, e suas tipologias internas refletem um ideal proposto, como o historiador faria para retirar esse ranço e se tornar, ele próprio, neutro?

Fica a reflexão…


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