O Brasil era a 4ª economia do mundo em 1880?

Redação e pesquisas: Pablo Bráulio*


LOROTA – As estimativas de produção e renda para o século XIX no Brasil mostram que a atividade econômica no país era bem inferior a muitos países da Europa, Ásia e América. O ritmo de crescimento também era bastante lento, se comparado a outras nações. A economia brasileira era essencialmente agrícola, baseada na mão de obra escrava e fortemente marcada pelo latifúndio e pela monocultura. Em 1880, com uma indústria bastante incipiente, o país ainda dependia enormemente de importações. Naquela época, a intensa internacionalização de produtos, capitais e pessoas contribuiu para o crescimento econômico global, mas a posição do Império do Brasil permaneceu periférica e vulnerável. Leia o texto completo abaixo para entender como chegamos a esta conclusão em mais uma checagem do PROJETO DETECTA.


O que detectamos

Em 2020, o Brasil caiu para a 12ª posição em ranking das maiores economias do mundo. A melhor colocação do país em classificações desse tipo ocorreu em 2011, quando o Brasil ultrapassou a Grã-Bretanha e figurou em 6º lugar, ficando atrás apenas de Estados Unidos, China, Japão, Alemanha e França. 

Há alguns anos, contudo, páginas monarquistas na internet começaram a propagar que o Brasil teria sido a quarta economia do mundo no ano de 1880. Deparando-se com esse dado intrigante, nosso agente especial MarcBot reuniu a equipe do PROJETO DETECTA para mais uma checagem da série “Narrativas Monarquistas”. Será mesmo que o Império do Brasil ocupou a quarta posição entre as maiores economias do mundo?

Print de postagem no blog político Monarquia Já

Nossa equipe não conseguiu identificar quando essa informação surgiu e em que fontes e estudos ela estaria baseada, mas o registro mais antigo que localizamos na internet foi uma postagem no blog Monarquia Já, em 29 de janeiro de 2016. A postagem consiste numa lista de “curiosidades”, cuja autoria é atribuída a Gilson Prior Micelli. 

No mesmo ano de 2016, a informação se difundiu rapidamente pelas redes sociais e foi massivamente replicada por perfis do Twitter e do Facebook. Até hoje, vez ou outra, nos deparamos com listas semelhantes que incluem a suposta posição privilegiada do Brasil na economia mundial no ano de 1880. 

Print de postagem nas redes sociais (Facebook, 2016)
Print de postagem nas redes sociais (Twitter, 2016)

Os rankings de economias mundiais são baseados no PIB (Produto Interno Bruto) de cada país. Como essa sigla sempre aparece nos noticiários, a gente até sabe que ela representa um indicador econômico muito importante, mas nem sempre a gente entende como isso é calculado e o que significa na prática. 

Em linhas muito gerais, sob o conceito de PIB, buscamos reunir o valor em dinheiro de todos os bens e serviços produzidos em uma região (um país, por exemplo) durante um ano. Assim, é possível mensurar a atividade econômica, tendo uma noção do quanto é produzido nessa região e da renda de sua população.  

Trata-se de um cálculo bem complexo a partir de dados estatísticos sobre pessoas físicas e jurídicas, investimentos públicos e privados, exportações e importações. Comparando o PIB de um ano com o anterior, podemos saber se a economia da região está crescendo, estagnada ou retraindo.  

Vídeo produzido pelo IBGE explicando o que é o PIB

O conceito de PIB é muito importante para as análises de macroeconomia, mas os economistas sempre chamam atenção para os limites do PIB. Fiquemos no exemplo do Brasil. 

Pela sua extensão territorial e sua numerosa população, sendo um dos maiores países do mundo, é compreensível que o Brasil também figure entre as maiores economias. Contudo, é necessário levarmos em conta outros aspectos antes de sairmos afirmando que o Brasil é um dos países mais ricos do mundo.

Para começar, o PIB é um indicador de fluxo de novos bens e serviços finais produzidos durante um período e não representa o total da riqueza existente no país. Além disso, se pegarmos o PIB per capita (ou seja, o valor do PIB dividido pela população), o Brasil cai muitas posições na lista das maiores economias. Para concluir, o PIB esconde a concentração de renda e a desigualdade social do país, fatores que colocam o Brasil em uma posição ainda mais desfavorável em comparação com outras economias do mundo.

Países por PIB nominal per capita em 2020 (Imagem: Wikimedia Commons)

No Brasil, o PIB é calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que se utiliza de diversos dados para isso. Mas desde quando estamos calculando o PIB brasileiro? Temos uma série histórica que nos permite comparar a atividade econômica do Império do Brasil com a atividade econômica de outros países do mundo no século XIX? Podemos responder dizendo que muitos pesquisadores têm se esforçado para isso.

O que verificamos

O conceito de PIB foi idealizado nos anos 30 por um economista russo radicado nos Estados Unidos e começou a ser aplicado no período pós-guerras. No Brasil, foi a Fundação Getúlio Vargas (FGV) que começou a organizar informações sobre a produção nacional e realizar cálculos sobre atividade econômica no país a partir de 1947. Só posteriormente essa função seria assumida pelo IBGE.

Assim, dispomos de dados consolidados somente de 1947 em diante pelo Sistema de Contabilidade Nacional (SCN). Para o período anterior, o que temos são estimativas realizadas por economistas, como é o caso de Cláudio Haddad, que apresentou um estudo, em 1975, sobre o crescimento do produto real brasileiro na primeira metade do século XX.

Segundo os economistas Armando Vaz Sampaio e Guilherme Tombolo, é difícil estimar o PIB para o século XIX “devido à escassez de dados e estatísticas” que sirvam de base para os cálculos. Marcelo de Paiva Abreu e Luiz Aranha Correa do Lago também atestam essa dificuldade ao afirmarem que são precários os dados sobre produto e renda no século XIX.

Marc Ferrez. Escravos em terreiro de uma fazenda de café na região do Vale do Paraíba, c. 1882. Vale do Paraíba (Acervo IMS)

Contudo, existem estimativas indiretas, sendo que a maioria delas se baseia em variáveis fiscais do governo, exportações e importações, agregados monetários e dados inferidos de indicadores parciais. 

As estimativas de produto e renda para o Brasil no século XIX mais citadas por pesquisadores foram feitas por Celso Furtado (1959), Nathaniel Leff (1972), Cláudio Haddad e Cláudio R. Contador (1975), John H. Coatsworth (1978), Raymond W. Goldsmith (1986), Stanley Engerman e Kenneth Sokolof (1997), Enrique Cárdenas Sánchez (2003) e Angus Maddison (2004). Algumas dessas estimativas são mais questionáveis e outras menos, mas todas elas são discutíveis e certamente nos apresentam valores mais ou menos aproximados.

Sampaio e Tombolo, em artigo de 2013, após análise dos vários estudos já mencionados aqui, apresentam suas próprias estimativas para a evolução do PIB real do Brasil (total e per capita) em reais de 2008 (tabela abaixo).

Tabela apresenta estimativas do PIB real total (em milhões de reais) e per capita (em reais) para o período entre 1820 e 2011. Sampaio e Tombolo utilizaram o real (R$) de 2008.

Para uma abordagem comparativa entre os países do mundo, a melhor referência parece ser o amplo estudo de Angus Maddison denominado The World Economy: Historical Statistics, publicado em 2004 pelo Centro de Desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nesse trabalho, as estimativas são apresentadas em dólares (Geary-Khamis) de 1990.

É bom ressaltar que, no século XIX, muitos países não tinham suas fronteiras definidas ou sua área territorial não correspondia à configuração atual. Vivíamos a “era dos impérios” e muitos domínios estavam em disputa. Talvez seja por isso que as estimativas de Maddison nem sempre levam em conta um país único, mas uma região que podia abranger um conjunto de países.   

Telégrafo Submarino Brasileiro, mapa da década de 1870 ou 1880 (Acervo: Arquivo Nacional / Imagem: Wikimedia Commons)

Maddison estima o PIB do Império do Brasil para 1880 em US$8.871 milhões. Contudo, não há muitas informações para esse ano envolvendo outros países e regiões. Se quisermos ter uma ideia da posição que a produção brasileira ocupava na economia mundial no final do século XIX, precisamos escolher outro ano como referência.

Uma lista com base nas estimativas de Maddison para o ano de 1870 foi publicada na Wikipedia e nos ajuda a visualizar melhor a posição do Império do Brasil no cenário mundial.

Então, em 1870, com um PIB total de US$6.985 milhões, representando apenas 0,6% do PIB mundial, o Império do Brasil não chegava nem perto dos quatro primeiros colocados da lista de Maddison: Império Britânico, China Qing, Índia britânica e Reino Unido. A sequência da lista ainda inclui França, Alemanha, Extremo Oriente (excluindo China, Japão e Império Russo), Europa Oriental (excluindo Império Russo), Itália, África, Portugal (com colônia), Japão, América do Sul e América Central, Sudoeste Asiático, Espanha, Canadá e Austrália, Bélgica, Países Baixos e Áustria, todos à frente do Brasil.

PIB total em milhões de dólares para o ano de 1870, segundo lista publicada pela Wikipedia. As estimativas são baseadas na obra de Angus Maddison (2004).

Vale lembrar que essa lista só inclui países e regiões para os quais Maddison conseguiu estimar o PIB no ano de 1870. Além disso, a lista corresponde ao PIB total. Se pegarmos o PIB per capita, o Império do Brasil ainda ficaria atrás de pelo menos Argentina, Uruguai e México, entre os países da América Latina para os quais Maddison realizou estimativas. 

Abreu e Lago, em capítulo do livro A ordem do progresso: dois séculos de política econômica no Brasil, comentam o ritmo de crescimento das atividades econômicas do Brasil ao longo do século XIX em comparação com outros países. 

Os autores utilizam os dados de Maddison, que estimou o PIB per capita brasileiro para o ano de 1820 em US$646, contra US$759 do México e US$1.257 dos Estados Unidos. Para o mesmo ano, a média do PIB per capita de doze países da Europa ocidental foi estimada em US$1.245. Já para o ano de 1890, Maddison estimou em U$794 o PIB per capita do Brasil contra US$1.011 do México, US$3.392 dos Estados Unidos e US$4.009 do Reino Unido.

Abreu e Lago chamam atenção para o fato de que as estimativas de Maddison indicam crescimento bem mais lento do Brasil e aumento das disparidades em relação a outros países latino-americanos e a países desenvolvidos. Segundo esses dados, “o PIB real per capita do Brasil teria aumentado apenas 22,9 % entre 1820 e 1890, ou seja, a uma taxa anual ligeiramente inferior a 0,3%”, concluem os autores.

Armazém da Alfândega da cidade de Belém, província do Pará, c. 1870 (Imagem: Wikimedia Commons)

Quando tratamos do Império do Brasil, não devemos esquecer que o país conservou, ao longo de quase todo o século XIX, a estrutura econômica herdada do período colonial. Era uma economia essencialmente agrícola, baseada na força de trabalho escrava e fortemente marcada pelo latifúndio e pela monocultura voltada para o mercado externo. Quase 90% da população vivia em áreas rurais. 

“A preponderância da agricultura na economia brasileira no período imperial era marcante”, segundo Abreu e Lago. Os pesquisadores reconhecem que havia “uma indústria incipiente na década de 1880, muitas vezes em unidades pequenas ou até artesanais, incluindo principalmente processamento de alimentos, têxtil e vestuário, e bebidas”, mas que respondia no máximo a 10% do PIB. “Um surto mais importante de industrialização no Brasil só ocorreria na esteira das políticas macroeconômicas expansionistas do início do regime republicano”, concluem os autores.

Entre 1870 e 1914, a intensa internacionalização de produtos, capitais e pessoas contribuiu para o crescimento econômico global. A expansão dos cabos telegráficos, as ferrovias e os navios a vapor, o padrão ouro e a intensificação da revolução industrial certamente foram fatores determinantes nesse processo e tiveram forte impacto no Brasil, estimulando mudanças estruturais, mas aprofundou as desigualdades regionais e sociais do país. A posição do Império do Brasil no cenário econômico mundial permaneceu periférica e vulnerável.


* Pablo Bráulio é mestre em História e atua como professor na Educação Básica.


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