Um livro obrigatório para a biblioteca do professor e historiador brasileiro | Clio Indica

Resenha de CARVALHO, Daniel Gomes de. Revolução Francesa. São Paulo: Contexto, 2022.

Passei os últimos dias debruçado sobre uma obra-prima da História produzida no Brasil. O caráter de obra-prima não é exagero diante do excepcional trabalho feito por Daniel Gomes de Carvalho, professor do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Chega aos historiadores, professores e apreciadores da História um livro de introdução à história e à historiografia da Revolução Francesa que desde o debate “jacobinos versus revisionistas” no fim dos anos 1980 estava em falta no Brasil.

O primeiro motivo de ser esta uma leitura obrigatória é o texto ser de uma leveza na narrativa. Daniel Gomes traz nas pouco mais de 170 páginas um texto rigoroso do ponto de vista histográfico e do ponto de vista da escrita muito agradável de ler. O professor da UnB conseguiu aliar muito bem a precisão teórica com uma apresentação de personagens dos mais interessantes, conectando a micro-história e macro-história, a biografia de um personagem com o processo revolucionário, tudo isso numa linguagem acessível e elegante.

Outro aspecto interessante do livro é o grau de atualização do debate sobre a Revolução Francesa. Ao olhar dos historiadores brasileiros não especializados  na “mãe de todas as revoluções”, o debate “Furet versus Vovelle” dos anos 1980 e 1990 era o que havia de mais novo no debate. Carvalho mostra no seu livro que este debate ficou restrito àquele momento histórico. Hoje, diante de seu texto, ficou claro que as críticas dos revisionistas tiveram suas contribuições para a historiografia, sobretudo, em matizar algumas questões enfatizadas pelos marxistas, mas que elas estão longe de se tornarem dominantes. O livro traz visões atualizadas sobre alguns temas centrais das narrativas da Revolução Francesa, como o Terror, que está longe do Terror totalitário das ditaduras do século XX, aspecto da revolução bastante debatido pela corrente historiográfica de Furet. Daniel enfatiza, corretamente, que precisamos olhar para a revolução em si mesma e não como antessala de uma revolução socialista.

Dos 9 capítulos do livro, os dois primeiros são os que mais me impressionaram dadas as suas inovações. O primeiro capítulo “As heranças da Revolução Francesa”, Daniel Gomes traz um debate interessante sobre os legados da Revolução. A lista traz ao menos uma dezena de legados do processo para a história. Um primor. Neste mesmo capítulo, o autor do livro traz generosamente o debate sobre o papel da Revolução Francesa para a história das mulheres, sintetizando em torno da questão da abertura ou do fechamento. Posicionando em favor da abertura, Carvalho demonstra neste capítulo e no restante do livro como a revolução abriu possibilidades para a atuação feminina no espaço público a partir do século XVIII.

No segundo capítulo “A Revolução foi apenas francesa? A Era das Revoluções de 1760 a 1789”, o professor da UnB faz uma boa síntese da segunda metade do século XVIII, apresentando o contexto revolucionário que gestou a Revolução Francesa. Para Daniel, a Era das Revoluções tem seu ponto de partida em 1760, com a Revolução Corsa, liderada por Pasquale Paoli. Paoli tem tão destacada atuação que batiza cidades nos EUA e foi recebido na França Revolucionária em 1790. Mas se o período tem uma face revolucionária, ele também tem outra reformista. E é neste contexto que o processo revolucionário francês se dá. Uma inovação para os livros de divulgação e manuais de Revolução Francesa editados no Brasil.

Os sete capítulos seguintes foram construídos trazendo o que há de mais renovado na historiografia sobre o processo revolucionário francês. Destes, o capítulo sobre os jacobinos tem um particular aspecto pois desmistifica bastante a visão estereotipada dos jacobinos, sobretudo nos manuais didáticos brasileiros. A ênfase “robespierrista” de algumas análises foi diminuída neste livro do Daniel Gomes. Uma grande contribuição para historiadores e professores de História brasileiros.

Em suma, recomendo fortemente o livro do historiador e professor da UnB. O livro tende a se tornar um dos mais lidos e dos mais presentes nas ementas dos professores universitários brasileiros e nos livros didáticos em breve. Devo dizer que este fato se dará com grande justiça, afinal, o livro mesmo sendo recém-lançado pela Editora Contexto se tornará rapidamente, como diz o título, uma leitura obrigatória para os amantes dos Caminhos de Clio.  

Resenha escrita por Gabriel Pereira da Silva Bastos, licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense, professor do ensino básico e apresentador do podcast Cliocast


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