Os Filhos da Jornada

I. O cuidado com as palavras

Em abril de 2012, o jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano publicou um livro muito encantador, Los hijos de los días (traduzido para o português como Os filhos dos dias). Composto por 366 ensaios curtos, porém intensos, pelos quais Galeano entrelaça fatos históricos e o tecido da vida, procurando encontrar o que há de coletivo e comum, em experiências e fatos singulares, que ocorreram ou se relacionam com cada um dos dias do ano, um ano bissexto, diga-se de passagem. Ainda nas primeiras palavras que compõem o livro, antes mesmo de chegarmos ao primeiro dia de janeiro – assim  como um tempo mítico que se dá em uma pré-temporalidade que, apesar de estar fora do calendário, pertencente aos deuses, ainda que demasiada humana – encontramos um pequeno conjunto de versos que o autor atribuiu a El Génesis, según los mayas [O Gênesis, segundo os maias]:

Y los días se echaron a caminar.

Y ellos, los días, nos hicieron.

Y así fuimos nacidos nosotros.

los hijos de los días,

los averiguadores,

los buscadores de la vida.

Que traduzo, de maneira bem caseira, como:

E os dias começaram a caminhar.
E eles, os dias, nos fizeram.
E assim fomos nascidos,
os filhos dos dias,
os investigadores,
os rastreadores da vida.
Escritor uruguaio Eduardo Galeano

Os filhos dos dias, aqueles que nascem com o caminhar das horas, possuem em sua origem a vontade de investigar e procurar pela vida. Versos que entrelaçam tempo, vontade de conhecer e vontade de viver como princípios da criação. Estes versos, a partir do olhar de um historiador, parecem se amarrar quase que propositalmente a uma forma poética de descrever o seu ofício. E é a partir deles que coloco uma pergunta, que costumo ouvir com frequência dos estudantes, seja com o habitual deboche adolescente ou com sincera curiosidade: “Mas para que serve a História?”

Seja qual for a motivação que leve à pergunta, é minha função como docente tirar dela o melhor e escrevo este texto com este objetivo. Para tanto, convido vocês a deixarmos um pouco de lado o texto que resgatei de Galeano, mas sem perdê-lo de vista, pois ele será o nosso guia.

Busto de Tucídides

Retornemos ao passado, bem distante, ainda no século V AEC., o lugar é a Hélade, a Grécia Antiga, para encontrarmos dois personagens, contemporâneos, ainda que tardios, haja vista  o primeiro ser cerca de 25 anos mais velho do que o segundo: Heródoto e Tucídides. Encontramos nos dois os primeiros usos do termo História (ἱστορία, transliteração: historía, que possui o sentido de “investigar” ou “conhecimento adquirido pela investigação”). Para os gregos da Antiguidade, escrever a História seria investigar e escrever sobre aquilo que viram e viveram, aquilo de que suas vidas lhes fizeram de testemunhas. Tucídides, por exemplo, escreve um livro chamado História da Guerra do Peloponeso (entre Esparta e Atenas), da qual participou e foi testemunha. Menos que narrar um fato passado e distante, Tucídides procura investigar o seu presente, ou seu passado recente, tomando sua experiência e vivência como elementos que apoiam a veracidade desta narrativa.

Distante de nós, e do sentido que damos hoje ao termo História, mas nem tanto. Retomemos os versos com os quais nos presenteou Galeano. “os investigadores”, que nasceram do caminhar dos dias, do passar do tempo. Tal como nossos colegas helênicos, que o mau gosto do patriarcado deu por chamar de “pais” da História, é  através da vontade de saber que nasce o historiador, a vontade de investigar.

Não estou sozinho nessa aproximação, o historiador italiano Carlo Ginzburg, em seu livro Mitos, Emblemas e Sinais (1989), nos traz essa relação com a investigação. Ao rastrear o nascimento e dar os contornos daquilo que ele chama de “paradigma indiciário”, o colega italiano traz a figura do fictício investigador Sherlock Holmes. O historiador está à espreita dos sinais, os procura e, através deles, busca deduzir a narrativa histórica, tal como um detetive que, diante das migalhas das pistas, se envolve no dedicado, atento e paciente trabalho de recompor o todo.

Vamos nos apropriar das palavras de Watson para conhecer um pouco mais do “paradigma indiciário”:

A partir de uma gota de água um lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou uma Niágara sem jamais tê-los visto ou ouvido falar que existem. Analogamente, toda vida é uma grande corrente cuja natureza torna-se conhecida desde que nos apresentem um único elo. Como todas as outras artes, a Ciência da Dedução e da Análise só pode ser adquirida através de estudos prolongados e pacientes; a vida não é suficientemente longa para permitir que um mortal qualquer seja capaz de atingir o ápice da perfeição em seu ofício. Antes de enfrentar os aspectos morais e mentais que apresentem maior grau de dificuldade em determinada questão, convém que aquele que indaga comece por dominar os problemas mais elementares. Que, ao encontrar outro mortal, aprenda a perceber através de um mero olhar a história de um homem e o ofício ou profissão a que se dedica. Por mais pueril que esse exercício possa parecer, ele aguça as faculdades de observação e ensina para onde olhar e o que tentar ver. As unhas de um homem, a manga de seu paletó, sua botina, os joelhos das suas calças, as calosidades de seu indicador e seu polegar, sua expressão, os punhos de sua camisa – eis diversos elementos que permitem discernir claramente a ocupação de um homem. Se tudo isso junto não revelar os fatos ao observador competente… Eis, em qualquer circunstância, uma hipótese praticamente inconcebível. (Trecho extraído de O Estudo em Vermelho, de Arthur Conan Doyle, São Paulo, Ed. Ática, 2003, p. 30).

O italiano Carlo Ginzburg dando um recado muito importante

Reeducar o olhar, o pensar, e o aprender, com muitos erros e poucos acertos encontrar as relações entre os fragmentos, isso é investigar. Afinal, como diz o provérbio popular alemão “o diabo mora nos detalhes”. Reparar cada fragmento, cada fração como parte de uma relação maior, mas não uma relação já definida pelo nosso preconceito, ou por nosso saber anterior, mas sim uma relação que escape do julgamento moral em busca de compreensões das diferenças. Mas o que isso tem a ver com os versos invocados por Galeano?

Tudo. Já tiramos dele a ideia do historiador investigador. Agora vamos nos preocupar com outro verso, o último do trecho citado: “os rastreadores da vida”. Sabemos que os historiadores são investigadores, mas não de qualquer coisa, o que interessa a eles é a vida, especialmente a humana, como disse um outro historiador francês Marc Bloch:

Há muito tempo, com efeito, nossos grandes precursores, Michelet, Fustel de Coulanges, nos ensinaram a reconhecer: o objeto da História é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singular, favorável à abstração, o plural que é o modo gramatical da relatividade, convém a uma ciência da diversidade. Por trás dos grandes vestígios da paisagem, [os artefatos ou as máquinas] dos escritos aparentemente mais insípidos e as instituições aparentemente mais desligadas daqueles que as criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas no máximo um serviçal da erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça. (Extraído de Apologia da História ou O Ofício do Historiador, de Marc Bloch, Rio de Janeiro, Zahar, 2001, p. 54)

Recorro a mais este historiador, pois não seriam eles os melhores para nos ensinarem para que “serve” a história? Bloch vincula os historiadores aos rastreadores, ou mesmo aos caçadores da vida. O interesse em compreender o que é humano, especialmente em sua diversidade, é a paixão que move o historiador. A diversidade é importante, pois aquele que elege apenas um tempo histórico – a Grécia Antiga, o Império Romano, a Segunda Guerra – como um tempo especial, do qual o presente nunca lhe é tão interessante, acaba por se perder como investigador, ele não está mais à espreita, atento, mas sim fascinado. Os filhos dos dias não são filhos de apenas alguns dias passados, mas de todos os dias, inclusive de seus próprios (o presente).

Ainda nos aconselhando com Marc Bloch temos um diálogo marcante entre ele e o importante historiador belga Henri Pierenne:

Já contei em outro lugar o episódio: eu estava acompanhando, em Estocolmo, Henri Pirenne. Mal chegamos, ele me diz: “O que vamos ver primeiro? Parece que há uma prefeitura nova em folha. Comecemos por ela.” Depois, como se quisesse prevenir um espanto, acrescentou: “Se eu fosse antiquário, só teria olhos para as coisas velhas. Mas sou um historiador. É por isso que amo a vida.” (Extraído de Apologia da História ou O Ofício do Historiador, de Marc Bloch, Rio de Janeiro, Zahar, 2001, p.65)

Temos aí que os historiadores, tais como os maias, são filhos dos dias e não do passado. O presente lhe é tão admirável quanto o pretérito, ou mesmo o futuro, não são poucos os que escreveram livros com um mesmo nome História do Futuro, como o padre António Vieira ou mesmo o historiador francês Georges Minois. Pois são os dias e o humano o seu grande interesse, e como esses dias em marcha constituem uma grande diversidade encantadora.

Vídeo nosso contando um pouco da vida e obra do historiador Marc Bloch

Mas, então, para que serve a história?

Para nada, para que ela deveria servir? Como nos ensinou o pensador indígena Ailton Krenak “Nós estamos, em nossa relação com a vida, como um peixinho num imenso oceano, em maravilhosa fruição. Nunca vai ocorrer a um peixinho que o oceano tem que ser útil, o oceano é a vida.” (Extraído de A Vida Não é Útil, de Ailton Krenak, São Paulo, Companhia das Letras, 2020, p. 109).

A História é uma das relações do ser humano com a vida, motivada pela sua vontade de saber, não limitada a uma vontade de verdade, mas expandida como vontade de potência, ou seja, de transformação. Na ideia de “servir” existe uma vontade de submissão, algo que não interessa à História, que busca frestas para que a vida flua. Mas, se insistem, com a vontade de uma serventia, ao menos podemos apontar que a História é uma espécie de “Mão de Maria”, uma ciência da compreensão e do cuidado, cuidado com os cacos, com as pistas, com a vida e com as palavras. E, por isso, sem o direito e com a ousadia, acrescendo um único verso ao lindo poema que nos traz Galeano, inserindo a História em uma tradição de um povo iniciado no sonho, como nos propõe Krenak, a História, diante de sua total inutilidade, serve apenas para dar continuidade à tradição dos filhos dos dias:

E os dias começaram a caminhar.

E eles, os dias, nos fizeram.
E assim fomos nascidos,
os filhos dos dias,
os investigadores,
os rastreadores da vida,
[zeladores das palavras.]

Referências bibliográficas:

  • BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
  • DOYLE, Arthur Conan. O Estudo em Vermelho. São Paulo: Ed. Ática, 2003.
  • GALEANO, Eduardo. Los hijos de los días. Buenos Aires: Ed. Siglo XXI, 2015.
  • GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e História. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
  • KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
  • MINOIS, George. História do futuro: dos profetas à prospectiva. São Paulo: Editora da Unesp, 2016.
  • TUCÍDIDES. História da guerra do Peloponeso. Lisboa: Edições Sílabo, 1905.
  • VIEIRA, António. História do futuro. Coleção Obra Completa, Tomo III, Vol. I. São Paulo: Edições Loyola, 2015.


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