Carmina Burana | Medievalíssimo Drops

O Fortuna

Sim, nesse drops vamos falar daquela música da propaganda de bolacha…


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Umas das marcas mais profundas do medievalismo é o uso de aspectos culturais reavivados e renascidos do medievo para o tempo presente. Esse uso porém é complementamente cheio de anacronismos dos mais diversos tipos, desde usos incorretos até mesmo manipulações profundas do que seja a Idade Médias e seus processos históricos.

Ilustração descrevendo a Roda da Fortuna, Anônimo (1230c.), retirado do Codex Buranus, Bayerische Staatsbibliothek, Munique, Alemanha

E a cantata dramática Carmina Burana, composta por Carl Orff entre 1935 e 1936, em plena Segunda Guerra Mundial, e que teve sua estreia pela Oper Frankfurt, uma das mais conceituadas companhias de ópera do planeta, em 1937 não foge à essas críticas de ser medievalista.

Entre outras críticas pesa contra Orff a pecha de ter contribuído com o regime nazista na Alemanha, aliás esse é um debate bem longo e com bons pontos para ambos os lados. O fato é que Carmina Burana teve um sucesso absurdo durante o período nazista por conta de suas raízes em uma Alemanha mítica, medievalismo típico do NSDAP, e Orff se aproveitou dessas condições e sua cantata permanece até os nossos dias como uma das peças eruditas mais reconhecidas, principalmente a sua primeira parte, chamada de O Fortuna.

Mas o que seriam as Carmina Burana?

Bom, começamos estabelecendo que não exista uma “Carmina Burana” mas sim “Carminas Buranas”, afinal se traduzindo do latim temos as Canções de Benedickbeurem, cidade na Baviera que é conhecida em latim como Buria. As 254 canções foram compiladas em um manuscrito em pergaminho em torno do século 12, mesmo ocorrendo canções anteriores e algumas do século 13. 

Essas canções foram escritas em latim, alto-médio alemão, franco-provençal e uma mistura de línguas, geralmente alemão ou francês vernaculares com latim. Essa mistura de línguas mostra como poderiam ocorrer trocas culturais em uma sociedade basicamente iletrada, afinal os clérigos e estudantes que compuseram essas canções viajavam por toda Cristandade.

Ilustração descrevendo a Floresta, Anônimo (1230c.), retirado do Codex Buranus, Bayerische Staatsbibliothek, Munique, Alemanha

Outra importante característica que podemos notar são as origens dessas canções, para além da região sul da atual Alemanha, onde está localizada Benedickneurem, há canções originárias de outros pontos do Sacro-Império Romano Germânico, além da Occitânia, da França, da Inglaterra, da Escócia e dos reinos ibéricos de Castela e Aragão. Essa miríade de origens e línguas reflete um alto trânsito e uma alta troca de culturas, nos mostrando um possível movimento europeu de culturalização e de padronização de gosto e temática.

Sobre isso, apesar da versão musicada mais conhecida, a de Orff, ser quase sinônimo de música sacra a maioria das canções presentes nas Carmina Burana são obscenas, irreverentes e satíricas. Talvez essa temática pode ser traçada por conta de quem produziu esses textos: os goliardos, ou seja clérigos católicos oriundos das universidades porém pobres que, sem o apoio da Sé de Roma, acabavam por se tornar vadios, boêmios, vagabundos, em seu sentido original, ou seja, aqueles que vagam, perambulam.

Ilustração descrevendo o jogo Tabula, Anônimo (1230c.), retirado do Codex Buranus, Bayerische Staatsbibliothek, Munique, Alemanha

Os goliardos eram conhecidos por viajar de cidade em cidade, de taberna em taberna, em um busca de um bom alimento, uma boa cama, e quem sabe alguns trocados. E o que eles ofereciam? Suas canções cínicas e satíricas.

Entre os autores dos textos estão grandes nomes da poesia medieval como Pedro de Blois, Walter de Chântillon e do Arquipoeta de Colônia, autor anônimo a quem foram atribuídos aos menos 10 poemas do período da Idade Média Central.

Carl Orff

O manuscrito foi descoberto em 1803 no mosteiro beneditino de Benedickneurem e hoje se encontra depositado na Bayerische Staatsbibliothek, a Biblioteca Estadual da Baviera. Entre os estudiosos que se debruçaram sobre as Carmina Burana estão Jacob Grimm, Johann Andreas Schmeller e Wilhelm Meyer.

Em termos musicais cerca de um quarto dos poemas contém algum tipo de notação musical, usando neumas, sistema de notação anterior a invenção do pentagrama musical por Johann Sebastian Bach. Elas vêm sendo adaptadas para cantatas e outras formas musicais desde o século 16, e artistas como o já citado Carl Orff, Ray Manzarek, tecladistas do Doors, além de bandas como Therion, Theater of Tragedy e Trans-Siberian Orchestra já fizeram as suas versões nos mais variados estilos.

Versão da canção O Fortuna pela London Philharmonic Orchestra


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