Domingos de Gusmão | Medievalíssimo Drops

Carinhoso como mãe, forte como diamante

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O cristianismo católico do século XII foi marcado profundamente por duas figuras com uma potência incrível: Francisco de Assis, que já foi alvo de um Drops aqui do Medievalíssimo, você pode ler ou ouvir clicando aqui, e Domingos de Gusmão. Ambos são exemplos de como o cristianismo se portou após a heresia cátara, as Cruzadas e as reformas gregorianas: deixar em segundo plano os aspectos políticos e de opulência e se aproximar do rebanho através da pobreza e do evangelismo.

Nascido em Caleruega, no reino de Castela, em 24 de junho de 1170, Domingos de Gusmão é um exemplo de místico medieval, seja por sua atuação teológica seja por sua atuação material e política. Vindo de uma abastada família da pequena nobreza castelhana, ele se dedica à vida eclesiástica por influência de sua mãe, Joana de Aza.

Vai estudar em Palência em 1189 concluindo os estudos em 1196 e se torna cônego da sua diocese natal, Osma. Em 1203 é enviado juntamente com o bispo de Osma pelo rei Afonso VIII de Castela para a Dinamarca a fim de negociar o casamento de alguma princesa para Ferdinando, o príncipe herdeiro. Nessa viagem Domingos teria ficado horrorizado com o desconhecimento dos povos da Europa Setentrional sobre as doutrinas e dogmas cristãos, o que lhe despertou o desejo evangelizador.

Óleo sobre tela São Domingos em oração, El Greco (1605c.), Museum of Fine Arts, Boston, EUA

Outra viagem importante na vida de Domingos foi para a região de Toulouse durante o auge da heresia cátara. Foi nessa viagem que o espírito evangelizador se consolida em Domingos e pouco depois, em 1206, após um grupo de mulheres cátaras buscarem nele orientação para uma vida cristã. Surgia ali o primeiro grupo de religiosas dominicanas enclausuradas e a semente da Ordem dos Pregadores iria começar a semear.

Em 1216 a ordem é oficializada e os dominicanos adotam a Regra de Santo Agostinho, afinal o Concílio de Latrão havia proibido a ratificação de novas regras pelas ordens religiosas. A ordem então passa a se dedicar exclusivamente à pregação dos Evangelhos, dessa forma ela começa a se espalhar pela Europa. São fundados capítulos, a menor organização dominicana, em Paris, Bolonha e Roma. Logo são fundados capítulos em Espanha e Portugal, além da Inglaterra e dos países nórdicos. Em 1221 é organizado o primeiro Capítulo Geral dos dominicanos, onde é adotado um regime democrático de organização, onde o Mestre Geral da ordem seria eleito pelo Capítulo Geral, que por sua vez é eleito pelo Capítulo Provincial, que por sua vez é eleito pelo Capítulo de Definidores, que é eleito por todos os membros da comunidade onde ele está localizado. Esse modelo de organização é considerado um dos mais democráticos dentro das ordens religiosas católicas.

São Domingos e os dominicanos estão intimamente ligados ao culto mariano também, pois em 1214 Domingos teria vivenciado uma aparição mariana que lhe deu força e vigor para a pregação na Catedral de Toulouse e a conversão de quase todos os habitantes da cidade para o cristianismo católico. Desde então um dos símbolos de devoção dos dominicanos, sejam seculares, sejam clérigos, é o Santo Rosário.

Óleo sobre tela São Domingos presidindo um ato de fé, Pedro Berruguete (1493c.), Museo del Prado, Madrid, Espanha

Tanto Francisco de Assis quanto Domingos de Gusmão, e as duas ordens religiosas fundadas por eles, a Ordem dos Frades Menores e a Ordem dos Pregadores, tem em suas bases a evangelização e o desapego aos bens materiais e mundanos. Tanto Francisco quanto Domingos são reconhecidos por suas atuações mendicantes, pacifistas e evangelizadores, seguindo o exemplo de seus fundadores e mentores.

Apesar dessas questões Domingos de Gusmão e a Ordem dos Pregadores acabaram por entrar no imaginário social cristão por conta da sua atuação dentro da Inquisição, em alguns casos sendo acusados de serem a própria instituição, pelo menos no seu período medieval. Essas acusações entretanto são meias-verdades: o papa Gregório IX instituiu o Tribunal do Santo Ofício em 1233, ou seja, doze anos após a morte de Domingos de Gusmão e 17 após a fundação da Ordem dos Pregadores.

Muitos dominicanos se colocaram contra a Inquisição, mesmo que durante o período medieval sua atuação seja “apenas” no campo espiritual, porque segundo a interpretação desses a instituição iria de encontro com os ensinamentos de São Domingos e da própria Bíblia.

Óleo sobre tela São Domingos de Gusmão, Claudio Coelho (1685c.), Museo del Prado, Madrid, Espanha

A verdade é que por conta da atuação de Domingos em relação à heresia cátara, ele foi um dos grandes pregadores contra o catarismo, e a brutal repressão que a Igreja Católica impôs aos cátaros, leia-se aqui a maior cruzada fora do Oriente Médio, acabaram unindo o imaginário de São Domingos e da Inquisição.

Não podemos descartar ainda a atuação dos dominicanos junto ao Santo Ofício após o período medieval, ou seja, após as Reformas Religiosas e o Concílio de Trento: Inácio de Loyola se inspira na atuação evangelizadora dos pregadores para fundar o jesuítas, por isso não é incomum encontrarmos em todo continente americano, principalmente na sua porção latina, colégios confessionais ligados tanto aos jesuítas quanto aos dominicanos. Lembrando ainda que temos uma ilha no Caribe, por sinal a segunda maior das Antilhas, que homenageia São Domingos.

Domingos de Gusmão viria a falecer em 6 de agosto de 1221, segundo relatos devido à exaustão e aos diversos períodos de jejum pelo qual ele se submeteria. Sua morte se deu rodeado por seus irmãos dominicanos no Convento de Bolonha, hoje a Basílica de São Domingos, sede da Ordem dos Pregadores.

É canonizado por Gregório IX, que o conheceu pessoalmente, em 2 de julho de 1234 em Roma, e o dia 8 de agosto é dedicado à sua devoção no calendário hagiológico. São Domingos é considerado o patrono e protetor dos Astrônomos, da Astrono, do Tocantins, da República Dominicana, além das cidades de Saubara, São Domingos do Capim, São Domingos do Prata, todas no Brasil, e de Kewa Pueblo, no Novo México, Valletta e Birgu, em Malta, Manágua, na Nicarágua, e Campana, na Calábria, Itália.

Óleo sobre tela Galileu encarando a Inquisição romana, Cristiano Banti (1857), coleção privada


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