O Poço:  Valores Anticapitalistas Diluídos na Cultura Popular| Clio Indica

Crítica | O Poço

O Poço gerou polêmica e um engajamento incomum nas redes sociais quando foi lançado na Netflix, algo semelhante aos lançamentos de “Bacurau’ e “Parasita”. Não existiam avaliações ponderadas, somente amantes e odiadores do longa. As críticas positivas ressaltam as ótimas atuações, o roteiro e as metáforas que representavam a vida social no capitalismo. Avaliações já esperadas sobre um filme que usa o elemento distópico para discutir aquilo que vivemos no dia a dia. As negativas são as mais intrigantes e merecem nossa atenção.

 O desfecho da trama dividiu opiniões pois boa parte dos “cinéfilos” de plantão queriam uma reviravolta inesperada no final, como se esse fosse o único recurso narrativo válido. Spolier: As maiores qualidades de “O Poço” não estão no seu “final surpreendente”, mas na construção de uma boa história, rápida, palatável para diversos públicos e com mensagens claras, apesar da metalinguagem. As que pessoalmente me incomodaram e nos levam a refletir são as acusações de mediocridade, afirmam que o filme tem um roteiro simplório e não esconde muito em suas entrelinhas. Oras, qual é o problema dos “Cults” com objetividade? Queriam mais um filme carregado com mensagens dúbias e herméticas que te fazem estudar a carreira do diretor e um movimento artístico para entender a “genialidade da película”? 

Tenho minhas duras críticas ao conteúdo político de 99% da produção cinematográfica financiada pela Netflix. Apesar do seu pretenso progressismo não podemos nos enganar! Se trata de uma empresa gigantesca do ramo do entretenimento e enquanto capitalistas possuem seus interesses de classe bem específicos. Fato é que essas plataformas com conteúdo audiovisual vêm crescendo exponencialmente no país, como um complemento ao entretenimento imposto pela TV aberta e uma alternativa aos caríssimos pacotes de TV por assinatura. Isso significa que milhões de trabalhadores, pessoas comuns, estão em contato com todo este conteúdo produzido por essas empresas. Como já posto anteriormente, não há ilusões quanto aos interesses de uma empresa e quais são os valores hegemônicos por ela compartilhados, entretanto existem permeabilidades e conteúdos que geralmente não fariam parte do conhecimento da grande massa e então chegando há alguma parcela dos trabalhadores. 

Um bom exemplo disso foi o sucesso de “La Casa de Papel”. A série contém valores anticapitalistas abertamente colocados ao público. O personagem “Professor” expôs em vários episódios, de forma clara e objetiva, a podridão do sistema financeiro internacional e nos leva a conclusão roubar um banco seria um ato de legítima defesa. A série virou uma febre e parte dos seus elementos foram aderidos pela “cultura popular brasileira”, as fantasias laranjas se transformaram em uniformes nas festas, nos bailes funk os jovens usavam máscaras e camisetas que faziam alusão a série e até clipes e musicas de funk foram gravadas com esse tema. Bella Ciao, a icônica canção italiana da resistência antifascista na Segunda Guerra Mundial se transformou numa canção popular entoada em estádios de futebol, eventos nerds e incontáveis ocasiões, tudo isto por estar presente na série. 

É preciso questionar: La Casa de Papel teria toda essa importância e repercussão se fosse direcionada aos “eruditos” do cinema? O valor do entretenimento está contido naquilo que ele esconde e só um pequeno grupo, após ter contato com uma gama áreas do conhecimentos prévios (Fotografia, História, Cinema, Literatura), consegue compreender? Nem sempre complexo é sinal de qualidade mas o senso burguês de hierarquização cultural por chaves do “inacessível às massas”, leva os filhos da classe média progressista, que tiveram acesso a uma educação mais ou menos, se sintam superiores e rejeitem o simplório, O “menos é mais” continua sendo uma máxima válida. Não estou fazendo ode alguma a mediocridade e me encontro entre esses que tiveram acesso mais ou menos a educação formal, aos autodidatas que não sabem muito, mas sabem mais que a maior parte da população no que diz respeito a essa tipo de conhecimento. Sou fã das grandes narrativas, das complexidades, reviravoltas, profundidades, roteiros complexos e blá blá blá. Porém não rejeito arroz com feijão e nem julgo as qualidades de algo me usando da sua “simplicidade” como critério principal, não rejeito o popularesco. 

O Poço é direto! Não se discute o que há fora dali e nem que tipo de sociedade é, mas algumas suspeitas surgem quando os certificados, prêmios que são dados para aqueles que participam do poço como experimento social recebem, são colocados em jogo. Quem se arriscaria a participar de algo tão duvidoso por um certificado? Qual é função deles e quais são as vantagens que seus possuidores têm acesso? Nada disso tem resposta, o que abre caminho para imaginação e debate (viu como não é tão “tacanho” assim?). 

O protagonista Goreng (Ivan Massagué) escolhe ir por livre e espontânea vontade para o Poço, com seu brilhante plano para cessar seu tabagismo a força, e ÓBVIO: receber o certificado após os seis meses de permanência no experimento. O Poço é um misto de experimento social e prisão para onde os piores criminosos são mandados. Chegando lá Goreng conheceu seu companheiro de nível, o velho Trimagasi. Um homem de poucas palavras que parece ter nascido ali, uma barata do poço. Logo Gorenge começa a entender que faz parte, como um rato de laboratório, de uma experimento cruel e desumano. A maior problemática do lugar é a fome e como a comida é repartida. Cada prisioneiro escolhe seu prato de comida preferido e os mesmos passam a fazer parte do cardápio da prisão. 

A organização que reina no Poço reflete o irracionalismo da sociedade burguesa, por meio de racionamentos e repartições equânimes seria possível que todos sobrevivessem. A vivência degradante faz com que os prisioneiros sigam um código não dito de um cada um por si extremado, mesmo sabendo que serão prejudicados quando mudanças acontecerem. Chegar a ser risível como a resposta pros dilemas da vida no poço parece ÓBVIA, e mais ridículo ainda quando transpomos essa lógica pra sociedade em que vivemos. Não é o mais racional  e razoável que dividamos as riquezas de forma equânime entre os trabalhadores, que são maioria absoluta? E não o fazemos por qual motivo? Nós não estamos em nenhum Poço, mesmo que isso sirva como metáfora para ideologia dominante, não estamos num experimento social,  o campo da possibilidade é muito mais amplo para nós. A mesma lógica do Poço rege a vida no capitalismo, passando a pancada que tomamos a frente, até que a pancada seja tão forte que não consigamos mais passá-la. 

Diretor comenta ideia por trás de 'O Poço', filme mais popular ...

Em entrevista o diretor Galder Gaztelu-Urruti, questionado sobre se O Poço seria uma crítica ao capitalismo, responde que o filme é uma crítica a “ambos” os sistemas sociais, pois o funcionamento normal do Poço seria a lógica capitalista e as ações tomadas pelo protagonista para resolver a questão da fome seriam “socialismo”. Defende uma posição centrista, que não diz muito além de criticar o “poder” em abstrato e discursar sobre natureza humana. Nessa entrevista fica claro que Galder Gaztelu-Urrutia entende tanto de socialismo quanto eu entendo de cinema. As medidas desesperadas que são tomadas por dois prisioneiros não refletem o que os socialistas pesam sobre poder, riquezas e produção e estão distantes que qualquer experiência do socialismo real no sec. XX. A solução mais próxima do socialismo para O Poço seria organizar os prisioneiros e promover uma saída coletiva de lá. É reconfortante saber que a obra supera o seu criador. 

O mais importante é que o filme possui uma linguagem acessível a todos os públicos sem ser tosca, discute questões importantes sem ser longo, arrastado ou enfadonho. Com atuações impressionantes e cenas que deixam muitos filmes de horror hollywoodianos devendo. O Poço é o caso de mais um filme que carrega reflexões importantes, ótima produção e atuações e furou a bolha dos iluminados degustadores de cinema “erudito”. A repercussão na mídia de massa, nas redes sociais e importância atribuída ao filme pela própria plataforma apontam esse fenômeno. É importante que mais conteúdo anticapitalista chegue aos trabalhadores pela via do cinema/entretenimento. Essas são importantes ferramentas culturais que carregam valores dos interessados que as produzem. Você viu algum soviético retratado no cinema estadunidense como herói? Rambo realmente é um herói de guerra? esses arquétipos todos são importantíssimos na política, dão  rosto familiar aos “inimigos de sempre”. 

Confesso que a baixa expectativa, após todas as críticas negativas que ouvi, fizeram da experiência do filme uma grata surpresa. Sobre as metáforas religiosas: não me interessa discuti-las. É um filme divertido, te prende a tela, tem seus alívios cômicos, em suma: um bom filme. Não é nenhum Almodóvar, mas é todo dia que se tem saco pra isso.   


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