Por Uma História no Trivial

Uma micro-história da microhistória

Antes de qualquer coisa, precisa-se entender um conceito importante dentro do fazer histórico que é o de temporalidades. Fernand Braudel (1902-1985) introduz este conceito em Escritos sobre a História (1969). O principal historiador da segunda fase da Escola dos Annales fala na existência de três temporalidades distintas:

  1. A longa duração, debruça-se sobre as grandes estruturas e suas mudanças sutis através de longos períodos de tempo. O Feudalismo, O escravismo da Antiguidade, a História do Cristianismo seriam alguns exemplos;
  1. A média duração também chamada de conjuntura, ciclo ou interciclo,  trata de de eventos com um recorte claro de tempo como a flutuação cambial, o processo sufragista em um determinado país, uma fase artística determinada. O recorte seria de algumas décadas no máximo;
  1. Já a curta duração seria a história de eventos pontuais. Braudel a chamava de tempo dos cronistas e jornalistas. O crime no restaurante, o acidente ferroviário, a inundação após uma tempestade. Mas também trataria-se da coroação de um rei, o golpe de Estado, a assinatura de uma lei.

Por algum tempo, os historiadores defenderam a preponderância da longa duração sobre a curta duração, relegando-a quase a uma temporalidade auxiliar, que serviria apenas para contextualizar as mudanças e rupturas dentro das grandes estruturas na longa duração.

Note-se que o tanto o recorte cronológico como espacial são bem restritos. Isto pode dar a sensação de tratar-se de uma temporalidade da trivialidade, como alguns historiadores pensaram, e ainda pensam. O que realmente importaria seria a estrutura, e não o corriqueiro.

No entanto, começaram a surgir críticas à esta abordagem grandiloquente, que se não for cuidadosa, apresenta respostas satisfatórias para a sutilezas e rupturas da longa duração, mas desumanizaria a História, tornando o indivíduo apenas uma parte de uma grande massa movendo-se através do tempo.

Em 1968, o historiador mexicano Luis González y González (1925-2003) escreveu  Pueblo en vilo: Microhistoria de San Jose de Gracia (Pessoas em suspense: Microhistória de San Jose de Gracia, conforme título traduzido no Brasil) . É a história de seu próprio vilarejo ao longo dos quatro séculos entre sua fundação e a década de 1960. Neste livro, o mexicano identificou sua metodologia com a História Local que valoriza a cultura, os costumes e as instituições não estatais, valendo-se na maioria das vezes de fontes não-escritas.

Além disto, González y González ofereceu nomenclaturas alternativas para a sua abordagem como, por exemplo, História Mátria, que valorizaria a pequena comunidade, e seus aspectos maternais e solidários, em oposição à História Pátria, centrada na política nacional e nos grandes eventos.

É tocante o trecho em que ele apresenta o seu vilarejo natal, esclarecendo que

não aconteceu ali nenhuma batalha de nota, nenhum tratado entre beligerantes, nenhum ‘plano revolucionário’. A comunidade josefina não produziu nenhuma personalidade de estatura nacional ou mesmo estadual; nada de grandes figuras nas armas, política e letras. Não produziu nenhum fruto chamativo e nem foi sede de nenhum feito importante. Parece ser a insignificância histórica em toda a sua pureza, o absolutamente indigno de atenção, a nulidade imaculada: terras fracas, vida lenta e população sem brilho, a pequenez, porém a pequenez típica

Luis González y González – Pessoas em suspense: Microhistoria de San Jose de Garcia

Poucos anos depois, esta metodologia de uma “história vista debaixo” reapareceu em Montaillou, village occitan de 1294 à 1324 (Montaillou, povoado occitânico 1294 – 1324, conforme título traduzido no Brasil), uma das grandes obras do historiador Emmanuel Le Roy Ladurie publicada em 1975. Neste livro, o autor usa os registros do processo inquisitorial de Jacques Fournier para esmiuçar a vida dos habitantes de Montaillou, vila da Occitânia que estaria “infestada de hereges cátaros” (você pode ouvi o episódio do Medievalíssimo sobre o catarismo clicando aqui)

O autor definiu a sua abordagem como um trabalho de antropologia histórica, visto que nós seus dois anos de pesquisa, sentiu-se como um antropólogo que vai à campo e produz o seu material de pesquisa através da observação minuciosa dos hábitos e costumes da comunidade estudada.

Note-se que no livro de González, o recorte espacial foi restrito à vila de San Jose de Gracia, mas manteve-se a temporalidade de longa duração. Já no trabalho de Le Roy Ladurie, a temporalidade se restringe à 30 anos, produzindo um estudo tão preciso que o próprio autor se impressionou com a imersão naquela realidade.

Inspirados nestes trabalhos, Carlo Ginzburg  e Giovanni Levi lançaram os trabalhos que fundamentaram a epistemologia da Micro-História. Em 1976, Ginzburg publica Il formaggio e i vermi. Il cosmo di un mugnaio del Cinquecento (O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição, conforme título traduzido no Brasil) onde usa o processo inquisitorial de Domenico Scandella, um moleiro também conhecido por Menocchio para traçar uma história das mentalidades do Friul do fim do século XVI. A partir do processo de Menocchio, passamos a saber como era o lugar e o tempo que viveu e também o que outras pessoas pensavam sobre a religião e o mundo que os cercava. Este livro serviu de base para o roteiro do filme Menocchio (2019) de Alberto Fasulo.

Giovanna Levi pública em 1985 L’eredità immateriale. Carriera di un esorcista nel Piemonte del seicento. (A herança imaterial. Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII., conforme título traduzido no Brasil), que trata-se de uma análise aprofundada das relações sócio-econômicas do campesinado de um pequeno povoado italiano piemontês chamado Santena durante o Antigo Regime, feita através da rede de relações ao redor de um exorcista chamado Giovan Battista Chiesa. 

Assim como Ginzburg, Levi pesquisou nos arquivos paroquiais, administrativos e mesmo notariais da região, reconstruindo os núcleos sociais e laços familiares. Os dois historiadores italianos foram os responsáveis pela publicação dos coleção Microstorie, pela Editora Einaudi, entre 1981 e 1988 e pelo início da publicação de estudos micro-históricos nos Quaderni storici publicados pela Editora Il Mulino desde a década de 1960. O trabalho de ambos disseminaram a metodologia para o restante da Europa, América do Norte e Latina. Um feito e tanto.

Dois estudos instigantes marcam a presença da Micro-História no Brasil. Ronaldo Vainfas escreveu em 2008 Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês, publicado pela Companhia das Letras. Nele conta-se a história rocambolesca de Manoel de Moraes, um jesuíta paulista que era missionário em Pernambuco no início do século XVII, tornou-se combatente contra as tropas holandesas, mas mudou de lado em 1634, passando a ser informante  e depois capitão de tropas holandesas. Depois da guerra, trocou o Brasil pela Holanda e o catolicismo pelo calvinismo, casando-se e tendo filhos. Mas não trata-se de mera biografia. Vainfas parte da vida do ex-jesuíta para entender o Brasil Holandês, a religiosidade e a mentalidade do século XVII.

Boris Fausto escreveu O crime do restaurante chinês: Carnaval, Futebol e Justiça na São Paulo dos Anos 30, em 2009, também pela Companhia das Letras.  Nele, Fausto parte do processo contra Árias de Oliveira, empregado de um restaurante chinês, acusado de assassinar seus patrões a golpes de pilão. Partindo das próprias memórias de menino, o historiador delineia uma teia de acontecimentos que vão da cobertura do processo pela imprensa, passam pelo declínio do carnaval de rua paulistano e chega à euforia com a participação da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1938, além dos conflitos entre migrantes e imigrantes em uma cidade que crescia rapidamente.

Um verdadeiro retrato, pois cristaliza uma São Paulo bem específica no tempo.

Todos os trabalhos citados, possuem em comum o uso dos mais variados tipos de fonte possível, na tentativa de analisar o fato histórico como em um microscópio, capturando todos os seus aspectos e irradiações. O “micro” aqui não trata-se apenas do recorte, mas do foco. Assim partiram-se do fato para a estrutura.

A principal crítica feita à Micro-História seria um excesso de especulação, que ao invés de cobrir as falhas documentais, tornariam os trabalhos quase que ficções históricas. Que seria impossível realmente compreendermos as ações de Menocchio, Giovan, Manuel e Árias. Que todas tratariam-se de ótimas biografias, que escaparam ao rigor do procedimento da análise de fontes.

Na verdade, o que acontece é que nos limites da documentação, da ausência de fontes, chegamos à natureza lacunar da História. Isto sempre acontece. Mas quando o foco é na curta duração, está lacunas são mais evidentes, como em uma lupa, ou microscópio. A Micro-História ao invés de ignorar estas lacunas, as assume, preenchendo com possibilidades, jamais com certezas, e cabe ao leitor refletir sobre quais são as mais plausíveis. Talvez não sejam as mesmas escolhas do autor.

Então, podem-se encerrar com a concepção de que a Micro-História não trata-se da “História do trivial”, mas da “História no trivial”.


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