Por que precisamos de séries como Sex Education? | Clio Indica

No Clio Indica de hoje será discutido sobre Sex Education, uma série britânica de comédia dramática lançada em 2019 e chegou com a sua segunda temporada em 2020. Tratando sobre muitos tabus dentro de várias temáticas sexuais, suas abordagens conquistaram um grande público. Encontramos personagens carismáticos, com diferentes problemas pessoais, passando por situações inusitadas. Trata-se, em sua maioria, de personagens adolescentes que já possuem uma rotina sexual, portanto, conseguimos nos identificar com algumas situações e desconhecer outras. O ponto alto da série é o tratamento natural e necessário sobre muitas questões na qual a grande maioria da população não possui conhecimento ou não se sente à vontade para falar sobre. Por que discutir Sex Education? Como atuar através de uma perspectiva histórica? Já vou dizer de antemão que a série traz assunto urgentes e necessários para o momento atual. O sexo é um tema/assunto não superado pelo moralismo conservador, e desde o Golpe sofrido por Dilma vemos uma onda reacionária inundando o Brasil. 

Primeiramente é preciso afirmar o óbvio: ao longo da história, o sexo sempre foi estigmatizado, principalmente e majoritariamente na cultura ocidental, pois foi praticamente construída por uma forte base do cristianismo. A Doutrina Católica, por exemplo, se posiciona firmemente contra o uso de contraceptivos, pois entende o sexo como função exclusiva para procriação. Os contraceptivos também são um risco pois dão maiores aberturas para infidelidade e o desrespeito do homem perante sua mulher na relação, pois dessa forma ela será tratada como mero objeto de prazer. Existe um discurso milenar da Igreja Católica contra o que eles chamam de “prazeres da carne”, ou melhor dizendo, o catolicismo se presta fortemente contra o estímulo dos prazeres nas relações sexuais. Esse discurso ainda está muito enraizado na sociedade atual, e também é reproduzido por outras igrejas evangélicas e encontrado em discursos mais conversadores.

Podíamos dizer que são ideias ultrapassadas, mas infelizmente, como já dito anteriormente, há uma tendência reacionária forte crescente no Brasil. Se atentando aos fatos mais recentes, vamos lembrar das eleições de 2018. Seria mentira afirmar que a alegação da distribuição dos materiais de “kit gay” e “Mamadeira de piroca” foram fatores decisivos para muitos eleitores? E utilizando mesmo de um linguajar chulo e grosseiro, pois foi dessa forma que essas ideias tiveram grande repercussão. Claro que estamos falando do grande problema da Fake News e como as pessoas acabam acreditando em notícias sem nenhuma base e praticamente sem sentido. Mas existe um fator que liga todas essa rede de notícias mentirosas e de má fé e o medo dessas pessoas de tudo isso ser real: a sexualidade. A cisheteronormatividade é um dos maiores males da sociedade contemporânea, e isso gera um impacto direto e avassalador em todos os graus e áreas possíveis da nossas vidas, ao ponto de viralizar uma notícia mentirosa na qual existia a possibilidade de uma “ditadura gayzista” proliferar e destruir a “família de bem”. Como consequência, um candidato sem nenhuma aptidão foi eleito à presidência.

Um ano após as eleições, o canal do Porta dos Fundos lançou um curta – metragem insinuando tendências homossexuais de Jesus Cristo. O resultado disso? Um alvoroço cristão nacional, quase retirando o curta-metragem do ar. É de se impressionar o quão ofensivo é a não heterossexualidade. Não dá para naturalizar as proporções que tomaram essa comoção. Fechamos 2019 com esse tipo de discussão.  

Apostila recolhida das escolas estaduais

Não temos nem 1 mês do ano de 2020 e vimos Damares Alves, intitulada como ministra dos Direitos Humanos, lançar uma campanha de abstinência sexual entre os jovens, para começar na primeira semana de fevereiro. O enfoque da campanha são para jovens entre 10 a 18 anos de idade. A data não foi escolhida a toa, pois trata-se da mesma Semana Internacional da Prevenção da Gravidez na Adolescência. Enquanto ela promove esse tipo de campanha, propostas de educação sexual são encaradas com muito assombro e rejeitadas de todas as formas. Ainda em 2019 , o governador de São Paulo, João Dória, retirou apostilas das escolas pois elas simplesmente explicavam o que é identidade de gênero e a diferença do sexo biológico. Em sua defesa, ele disse que “”Não aceitamos apologia à ideologia de gênero”. 

Ler o texto até esse ponto deve criar uma verdadeira incógnita. Qual a relação com a série? A resposta é simples. Não vou me ater muito à história da série em si ou aos personagens, mas sim ao seu tema. Com o toque certo de bom humor, a série apresenta diversos personagens em inúmeras situações na qual o enfoque é o sexo. A série possui a premissa de apresentar o cotidiano do adolescente e como ele encara o turbilhão de hormônios (ou não) tomando conta dele. De maneira muito didática, encontra-se inúmeras curiosidades que podemos desfrutar ao longo da vida, ou que já desfrutamos. Ela traz um olhar muito pertinente e atencioso para o adolescente, inclusive como ele encara e lida com problemas sociais, de classe e gênero. Fica claro qual o problema da desinformação quando, por exemplo, existe um falso boato na escola de surto de clamídia. Praticamente nenhum dos estudantes sabe ao certo o que é clamídia e sua forma de transmissão. 

A série também discute ou simplesmente representa sem grandes dificuldades assuntos mal abordados (quando existe a possibilidade de uma abordagem), como no caso do aborto. Em um episódio, uma personagem realiza o aborto de forma muito decidida e sem grandes emoções. Afinal, o aborto é legal na Inglaterra. Isso é tratado em apenas um episódio e não aparece mais em nenhum ponto da história, pois a ideia é tratar do assunto com naturalidade. O assédio sexual foi um assunto muito bem abordado na segunda temporada, além de muito representativo. O medo de denunciar, a demora de processar o que aconteceu.

A sexualidade é um dos pontos fortes da série. Não estamos falando somente do protagonista hétero e seu melhor amigo homossexual. A história explora as diferentes sexualidades, e não somente como orientação sexual, mas sim com os prazeres e as formas de se relacionar. A adolescência é o ápice dos descobrimentos humanos, e não há como evitar a prática sexual, a curiosidade e a vontade. Até porque isso não faz nenhum sentido. A proibição, repressão e a restrição gera diferentes distúrbios psicológicos, problemas de sociabilização, agressividade e bullying. As relações parentais também são bem apresentadas e não romantizadas. Todo esse emaranhado de coisas são bem tratadas na história, no sentido do espectador se identificar ou então de elucidar questões não compreendidas. 

Todos esses pontos tornam a série muito necessária. A população brasileira tem medo de falar sobre os sexos e suas sexualidades. É possível entender o real problema disso? Não há somente um sexo e uma, ou duas, sexualidades. Aqui somos forçados a uma horizontalidade irreal quanto as essas vivências. A desinformação, a falta de conhecimento e exploração desses assuntos geram mais e mais problemas. A ideia não é somente distribuir camisinha no posto, proibir de transar antes dos 18 anos, ameaçar ser expulso de casa se engravidar. São abordagens não funcionais, e estamos cansados de saber disso.  Quanto mais a pessoa estiver informada e apresentada sobre suas dúvidas e curiosidades, mais facilmente ela saberá como agir e a lidar com alguns desafios. A camisinha não pode ser encarada somente como método contraceptivo, mas principalmente para prevenir inúmeras IST’s (Não é mais chamado de DST pois entende-se não ser uma doença e sim infecção). Em uma sociedade na qual é ofensivo insinuar uma não heteressexualidade, em que uma suposta “Ideologia de gênero” é tida como ameaça e combatida, em que educação sexual é fortemente reprimida e não permitida, precisamos com certeza de abordagens como Sex Education. É preciso ter um olhar sensível voltado para o adolescente. Tentar entendê-lo, oferecer ajuda, não debochar dos seus problemas. Tudo isso é pensar na saúde mental dessas pessoas, pois muito do que as afeta pode refletir para os demais. Sexo deve ser debatido, conversado e tratado como natural. 

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