Capela dos Aflitos | Opinião

Fundado em 3 de outubro de 1774 por Dom Frei Manoel da Ressurreição, então Bispo de São Paulo, este cemitério destinado para os pobres, indigentes, escravos e condenados a justiça, o cemitério estava localizado na época, no que era considerado o limite sul da cidade entre o Caminho de Carro para Santo Amaro e o Caminho do Mar. Atualmente, seria a área entre as Ruas Galvão Bueno, Dos Estudantes e Da Glória.

Capela dos Aflitos.

Anos depois, em suas proximidades fora erguido, em julho de 1825, na Chácara dos Ingleses, o Hospital de Caridade da Santa Casa (posteriormente transferido para Rua da Glória e em 1884, para o atual endereço, na Rua Doutor Cesário Motta Júnior), Com a construção do Cemitério Municipal (Cemitério da Consolação), apesar dos protestos da população, o Cemitério dos Aflitos foi impedido de funcionar, pois, a partir de 15 de agosto de 1858, foram proibidos sepultamentos em outros lugares que não o novo Cemitério da Consolação (Cemitério Municipal).

Em 1779 foi criada a Capela Nossa Senhora dos Aflitos próxima ao campo da forca, Enforcadouro de São Paulo, o primeiro cemitério aberto de São Paulo onde hoje é a Praça da Liberdade, muitos condenados à forca aguardavam dentro da capela aflitos pelo seu destino, daí veio o nome Capela dos Aflitos. Entre os sentenciados, o mais famoso foi o soldado Francisco José da Chagas, conhecido como “Chaguinha”. Em 27 de julho de 1821, sob o governo do tenente-coronel Bento Alberto da Gama e Sá, abrigava-se no velho quartel da Rua de Santa Catarina o Primeiro Batalhão de Caçadores, parte da guarnição, composta ao todo de um regimento. Nesse quartel, teve origem a Revolta nativista, onde os amotinados reivindicavam salários com atrasos de 5 anos, aumento do soldo e igualdade no tratamento de soldados brasileiros e portugueses. A sentença do Chaguinhas foi a pena de morte pela forca. Chefiada por Chaguinhas, os amotinados atacaram uma embarcação de bandeira portuguesa, fato que causou o prisão de seus líderes, Chaguinhas e Cotindiba. Francisco das Chagas e Cotindiba foram os únicos que seguiram presos para São Paulo, aparentemente pelo fato de serem os cabeças do motim, fato que foi contestado pelos irmãos Andradas, José Bonifácio de Andrada e Silva, Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva. No dia 20 de Setembro de 1821 houve a execução. Primeiro foi o soldado Cotindiba. Depois, foi lançado Chaguinhas, mas a corda arrebentou e o réu caiu ao chão. As pessoas, que a tudo assistiam, clamaram pela Liberdade, termo esse que deu origem ao atual nome do local. Era o costume desse tempo, perdoar-se o condenado, ou comutar-lhe a pena, em casos semelhantes, o governo, consultado, foi intolerante, e novamente foi armado o laço e dependurado para lançamento. E assim se fez. Mas a corda arrebentou de novo, pela terceira vez a corda arrebentou. Há duas versões para a sua morte de fato: uma, é que foi fuzilado e a outra, é que foi assassinado a pauladas. A capela se tornou lugar de devoção e Chaguinhas virou uma espécie de santo, as pessoas fazem pedidos, acendem velas, e batem três vezes em uma porta antes de fazer o pedido a Chaguinhas .

Mesmo com o terreno sendo loteado a partir de 1810, vendas e partilhas de sítios nos arredores do local, a Capela dos Aflitos continua no mesmo lugar resistindo ao tempo. Originalmente construída em taipa de pilão, no estilo barroco da época, modificou-se sua feição original após sucessivas reformas, acrescentando-se alvenaria de tijolos e concreto armado. Segundo o jornal estado de São Paulo em 26 de setembro de 1961, a capela sofreu um desabamento parcial da parede lateral devido à obra em um terreno vizinho. Com o passar do tempo e a falta de cuidados, a capela se deteriorou, ficando em más condições. Em 1995 a capela sofreu com um incêndio, cujo deixou a situação ainda pior. Apesar de tudo ainda são celebradas missas, que geralmente contam com a lotação máxima de 20 pessoas.

Segundo o jornal, a reforma após o incêndio foi feita pelo pedreiro Eronildes Ribeiro Santana. Anteriormente, ao fazer uma reforma, encontrou ossos humanos incrustados nas paredes, o mesmo afirma que “se está dentro da igreja tem que ficar”. Em 27 de novembro de 1976, se deu o processo de tombamento, pois tem um papel importante na história da liberdade. Em 7 de fevereiro de 1977, o secretário executivo Rui de Azevedo Marques responde à solicitação do tombamento como sendo autorizada, mas só em 23 de outubro de 1978 e reconhecido o tombamento como a capela sendo monumento histórico.

Como a capela é tombada, o projeto foi aprovado pelos órgãos do patrimônio histórico e agora segue para o Ministério da Cultura um projeto para obter restauro incentivado pela Lei Rouanet. A obra vai custar cerca de R$ 1,5 milhão. Isso em 2011, e ainda não há previsão para o inicio das obras. Mostrando assim certa falta de interesse de restauro breve da capela por se tratar de um local que guarda a memória de uma população marginalizada de negros, pobres, aflitos, supliciados, indigentes sem representação política. A pequena e esquecida capela dos aflitos mesmos com tantos problemas em sua estrutura se mantém firme no tempo e preserva em suas paredes a memória de pessoas esquecidas pela sociedade.

A Capela não realiza casamentos e nem batizados. Ela é exclusiva para devoção. Ao lado da capela existe um pequeno velário onde as pessoas acendem vela para as almas daqueles que ali foram enterrados. Práticas religiosas são decorrentes no local, principalmente os pedidos feitos ao soldado “Chaguinha” na forma de pedidos feitos à entidade através de pequenas anotações dos desejos escritas em um papel que é dobrado e colocado nas fissuras da porta que dá para o velário. O sincretismo naquela região é tão forte que pode ser o motivo pelo qual algumas pessoas, ao longo, dos anos escolheram aquele local para se suicidarem, como no caso de Olavo José Barbosa de 25 anos que se suicidou ao lado da capela. Construção que esteve de certa forma sempre alinhada com a representação da morte, pois nela se velavam os menos afortunados como no caso dos escravos que, quando havia velório, o corpo era levado por outros escravos que subiam da baixada do Glicério pela Tabatinguera, paravam na igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e seguiam até a Capela.

Apesar de resistir ao tempo, mesmo com todas as dificuldades, a capela não pôde resistir ao crescimento exponencial da cidade. Com o loteamento do terreno no final do século XIX, a Capela foi rodeada e comprimida por novas construções que com o passar do tempo eram derrubadas e davam lugar a novos prédios.

Com a imigração e instalação dos imigrantes orientais na região, as características coloniais foram mais afetadas. Um verdadeiro processo de substituição de uma memória fúnebre colonial e imperial por uma memória estrangeira oriental moderna.  Fato bastante representativo pela instalação das luminárias típicas na década de 70, principalmente por uma ser colocada bem de frente com a Capela como nas fotos acima, que causam um contraste muito forte. Fato que se intensificou com a política de  “ressaltar a cultura oriental” no bairro.

Mesmo escondida, sufocada e de certa forma esquecida, a Capela dos aflitos segue de pé, guardando a memória de uma São Paulo colonial e de um cemitério reservado para escravos e para aqueles que eram executados. Cumprido ainda hoje com seu papel em relação à fé. Sendo o maior contraste da paisagem do bairro que enaltece a cultura oriental.


BIBLIOGRAFIA

 – Acervo do jornal O Estado de São Paulo. Jornais dos dias 6 de janeiro de 1995 / 26 de outubro de 2001 / 19 de outubro de 1956 / 27 de setembro de 1961 / 20 de fevereiro de 1977 / 2 de agosto de 1997.

http://acervo.estadao.com.br/

 – Processo de tombamento acessado em 10/10/2017

http://www.arquicultura.fau.usp.br/index.php/encontre-o-bem-tombado/uso-original/religioso/capela-dos-aflitos

  – Arquidiocese de São Paulo

http://www.arquisp.org.br/regiaose/paroquias/mosteiros-igrejas-historicas-oratorios-da-regiao-se/igreja-nossa-senhora-dos-aflitos

– SP Cultura

http://spcultura.prefeitura.sp.gov.br/espaco/1854/


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