O bairro, a escola, minha vida… história? (Wagner Pinheiro) | Librorum

A leitura que mais me inspirou para atuar como educadora foi a obra de Wagner Pinheiro intitulada O bairro, a escola,minha vida minha… história?  Foram 13 anos de prática no magistério para concretizá-la. Ele atuou com alunos do supletivo (conhecido atualmente como EJA) da quinta e sexta série em 2001, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Tenente Aviador Frederico Gustavo dos Santos, na Vila Nova Cachoeirinha. Era aproximadamente 35 alunos entre 14 e 44 anos.

Wagner fez a obra em 2001, e fala sobre a Pedagogia da inclusão, com base na Lei de Diretrizes e Bases (1996) e nos parâmetros curriculares nacionais (1997/1998). Logo na apresentação ele já ressalta sobre a permanência histórica no conflito de pedagogia da inclusão x realidade da exclusão. Teoricamente a pedagogia da inclusão fala sobre prática da cidadania em respeito às diferenças, mas como professor da rede pública do Estado, Wagner entende a real dissonância dessa ideia do que é vivenciado pelos seus alunos, e entende a necessidade disso ser discutido em sala de aula. 

Trabalhar com os problemas em sala de aula no ensino de história são imensuráveis: os temas são mal definidos, indutivos, são difíceis os caminhos traçados pelos professores para alcançar uma solução dos problemas enfrentados diariamente, e o contexto na qual os estudantes estão inseridos são decisivos para encontrar essa solução. Ou seja, levar em conta a vivência de cada estudante e suas particularidades é um ponto crucial para compreendê-los e inseri-los nesse debate. 

Alunos do EJA em sala de aula.

O outro ponto primordial trabalhado por Wagner foi o diálogo. Os estudantes tinham abertura para falar sobre os temas levantados, e as suas percepções foram os fios condutores para as análises e reflexões em conjunto na sala de aula. Um assunto muito abordado foi Ética – Liberdade e Responsabilidade que foi proposta pela Secretaria de Educação na Revista Educação. – O primeiro contato foi registrado nos cadernos e foi baseado no relacionamento de Wagner com os seus alunos ao longo do ano. Fizeram uma síntese do que é esperado do professor e do estudante. E foi concluído em conjunto o seguinte: Do professor é respeito com o ritmo dos alunos, explicações claras, ser bom ouvinte, imparcial e manter  pontualidade. Já dos estudantes eram compromisso com os estudos, caderno organizado, levar material necessário para aula, respeitar os colegas e realizações das tarefas. 

Foi proposto uma reflexão sobre trajetória de vida de cada um deles e uma organização dos acontecimentos em datas. Baseados nisso, realizaram uma discussão em sala de aula e concluíram que memória e história são o olhar do presente para o passado. “Estudaram a história do bairro e da escola  através de fontes que dispunham. O objetivo era explicar a história como conhecimento construído a partir do presente e que, no fazer das sociedades, existe uma íntima relação entre mito e história” p 6. Como apontam as análises dos próprios estudantes, a imposição de uma única versão da história sobre determinadas pessoas as tornaram superestimadas. Wagner trabalhou a relação entre mito e história. Trabalharam com a biografia do Tenente Aviador Frederico GUstavo dos Santos, quem a escola recebeu o nome. Wagner explicou sobre a produção do texto biográfico e dividiram-se em duas turmas. Uma defenderia o ato em nomear a escola com o nome do Tenente, enquanto a outra parte realizaria a crítica. Algumas das conclusões foram registradas.: 

Na aula de história estivemos conversando sobre mito, mito é uma história, uma narrativa, sobre atos heróicos que exagera um pouco e faz uma confusão entre realidade e fantasia – Elimar Ribeiro Santos de Almeida

Espero que a sociedade valorize histórias como a minha, pois são histórias reais e muito importantes para o desenvolvimento do bairro e do país. Que todos possamos ser valorizados igualmente, que possamos ter direito à escola, à escola, ao trabalho, etc. E que possamos ser lembrados pela nossas lutas como pessoas normais e não como mito – América Trintade Santana de Oliveira

 Trabalhar em sala de aula para ter consciência da própria construção da história, e que muitas vezes ela pode ser forjada e imposta de uma só versão a um grupo social, apresentada como a única verdade sobre tal fato. Após um recesso no meio do ano, entraram novos alunos na turma e realizaram uma conversa entre os novos e os antigos alunos para falarem sobre o que aprenderam em história na vida escolar. Os antigos alunos falaram das atividades realizadas aos novos ingressantes. Na fala dos alunos quando comentaram sobre a época da ditadura militar, a sala ficou dividida entre aqueles que acharam o período mais seguro enquanto outros se viram censurados e na miséria. Relacionaram o período com a Segunda Guerra Mundial. Logo no final do ano eles realizaram uma brochura com tudo que haviam estudado ao longo do ano. 

Paulo Freire já considerava a importância do conhecimento prévio do aluno, como denominava “leitura do mundo”. Wagner capta a essência freiriana e entende o processo de aprendizado uma troca, pois assim como educador ele também está nesse mesmo processo de aprendizado com os estudantes. Ouvi-los, compreendê-los, respeitá-los e dar espaço para se expressarem abre caminho para traçarem uma relação mais direta com o que estão estudando. Como professor de História, trabalhar o conceito de mito com a turma foi base significante para compreenderem de qual ponto a História tem sido estudada a tantos anos, e os levaram há uma análise crítica dessa construção histórica mascarada e fazer com que sintam-se agentes históricos.


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