Texto escrito por Gabriel Pereira da Silva Bastos, graduado em História pela Universidade Federal Fluminense, especializado em Ensino de Geografia, professor do ensino básico e host do Cliocast
Há alguns dias, o Brasil foi surpreendido por um ataque terrorista. Na noite de 13 de novembro, vestido de Coringa, Francisco Wanderley Luiz, militante bolsonarista conhecido como Tio França, invadiu os arredores da sede do Supremo Tribunal Federal, explodiu alguns artefatos e detonou a si mesmo. Tio França era catarinense, foi candidato a vereador na cidade de Rio do Sul em 2020 e filiado ao Partido Liberal. Parentes relataram que Tio França era um homem comum, pequeno empresário, que ao longo dos anos se radicalizou, o que inviabilizou a convivência com as outras pessoas. Nos últimos dias de vida, Francisco viveu em Brasília organizando o ataque.
Para além da caricatura, falar do Tio França é debater um processo de radicalização típica do fascismo. Os fascistas têm uma preocupação excessiva com a decadência da nação e essa preocupação estava clara nas mensagens publicadas nas redes sociais do Homem Bomba do bolsonarismo. Explicitar o caráter fascista daquela manifestação é importante. Definir o Tio França como um fascista é mais do que rotular, é alertar que aparente precariedade e tosquice do ataque é típica do fascismo. Estourar bombas na Praça dos Três Poderes está para além da bizarrice do caso. É alertarmos que no fascismo é comum cultos compensatórios, ações vistas pelos de fora como irracionais ou mesmo idiotizadas, mas que para os “de dentro”, são claras demonstrações de heroísmo, patriotismo e desprendimento.
Este verbete do Dicionário Histórico Clio tentaremos dar uma aproximação a fenômeno fascista, sintetizando os debates acadêmicos sobre este comportamento político. Assim, o nosso texto está dividido em 3 partes: a primeira fazendo uma definição de fascismo; a segunda, buscamos caracterizá-lo e na última parte, respondendo algumas polêmicas: existe fascismo hoje; seria o fascismo de esquerda ou direita; fascismo e comunismo são “irmãos gêmeos” e seria ele anticapitalista?
Mas afinal o que é fascismo? Antes de aprofundarmos, é importante retomarmos as origens da palavra fascismo. A palavra que originou no fim da década de 1910, após a Primeira Guerra Mundial, a partir dos Fasci Italiani di Combattimento, que eram grupos paramilitares famosos por suas camisas pretas. Chefiados pelo jornalista e ex-membro do Partido Socialista Italiano Benito Mussolini (1883-1945), os fachos ganharam projeção mundial ao promoveram pesadas ondas de perseguição a sindicalistas e outros grupos de esquerda. Com um programa ultraconservador, os milicianos faziam uso de violência política. Apoiados por frações das elites, os membros dos Fasci eram compostos de grupos de classe média, militares frustrados com o cenário pós 1918 e outros grupos radicalizados. Os Fasci se converteram no Partido Nacional Fascista em 1921, força política que chegaria ao poder depois da Marcha sobre Roma e a nomeação de Mussolini ao cargo de primeiro-ministro, em 1922, conduzindo a Itália até 1945.
Se fascismo vem das milícias Fasci, esses grupos foram batizados retomando um velho símbolo romano, o fascio. Fascio era um feixe de varas atados a um machado com uma tira de couro, sendo utilizado pelos litores, guarda-costas dos magistrados romanos, para abrir caminho em meio a multidões. Com tempo esse instrumento passou a ser utilizado como símbolo de liberdade na Revolução Francesa e na Unificação Italiana, além de diversos outros grupos e movimentos de esquerda, se tornando símbolo da luta pela justiça e pela igualdade. O fascio se converteria em um símbolo da extrema direita em 1917. Ou seja, o nome fascismo advém de um símbolo associado às lutas de esquerda. No início uma das marcas dos movimentos fascistas é apropriação de símbolos e temas caros aos grupos de esquerda. É nesse cenário por exemplo que os nazistas na Alemanha chamaram o seu partido de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Dizer que os nazis são de esquerda por isso é desconhecimento histórico.
O fascismo foi a maior invenção política do século XX. Entre o fim do século XIX e o início do XX, as guerras imperialistas, a explosão do nacionalismo, a Primeira Guerra Mundial, as revoluções socialistas e as mudanças culturais promoveram a criação desse comportamento político. As intensas mudanças do período criaram junto a certos setores da sociedade um medo extremo de mudanças, de uma suposta decadência social e moral e, somado aos ressentimentos de guerras perdidas, criaram o caldo de cultura que formou o fascismo. É comum dizermos que o fascismo tem origem na Itália do período pós- 1914. Entretanto, as origens do fascismo têm longas raízes. Alguns autores reconhecem que o primeiro movimento com contornos fascistas seria a Action Française, movimento contrarrevolucionário e monarquista fundado em 1898 por Charles Maurras. Favorável a restauração monárquica sob reinado dos Orleans, a Action Française se tornou um dos polos da extrema direita francesa. Essa posição não é consensual.
Outro debate que não é consensual é sobre as origens intelectuais do fascismo. O filósofo britânico Isaiah Berlin argumenta que o fascismo tem parte das suas origens nas formulações contrarrevolucionárias de Joseph de Maistre, conhecido autor francês do período da Revolução Francesa de 1789. Há ainda uma outra vertente que argumenta que o fascismo não tem um pensamento organizado, nem original, pois, uma das premissas desses movimentos é a não formulação teórica e uma obsessiva preocupação prática.
Afinal o fascismo é uma ideologia, movimento político, comportamento político? Essas são algumas das formas de pensar o fascismo. Para o historiador e cientista político estadunidense Robert Paxton, fascismo é
“uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz, com as elites tradicionais, repudia liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza.” (p.378)
Ou seja, o fascismo é comportamento político, uma forma de proceder, um jeito de agir típico baseado no medo da decadência e da humilhação da comunidade. Esse medo de um perigo eminente determina cultos compensatórios, ações variadas para impedir essa decadência. Os fascistas agem em cooperação com as elites tradicionais embora não sejam eles oriundos desses grupos sociais, apelando para a violência, vista como redentora e sem limites. Essa definição foge de listar teorias ou ações dos fascistas, dado o fato deles podem ser diferentes de acordo com as realidades nacionais. Lendo esse parágrafo, fiquei pensando na ação do Tio França, nas manifestações durante o governo Bolsonaro e nas portas dos quarteis depois da vitória de Lula em 2022.
Na segunda parte faremos um esforço apresentar as características do fascismo. É quase senso comum entre os analistas a enorme dificuldade em definir as suas características marcantes. Se tratando de um comportamento político, o fascismo tem diferentes configurações nas diferentes realidades nacionais. Por isso, podemos dizer que outros movimentos como o nazismo na Alemanha, o franquismo na Espanha, o salazarismo em Portugal, o integralismo e mais recentemente o bolsonarismo são fascistas.
Em “O Fascismo Eterno”, o filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco chamou a atenção para um fato importante: os fascismos são diferentes nos diferentes lugares, o que faz com que em muitos casos os fascismos tenham aparências diferentes entre si. Mas não perdem a sua identificação como tal. Eco lançou mão do conceito de semelhanças de família de Ludwig Wittgenstein para explicar o fascismo. Permita-me explicar essa ideia.
Quando falamos a palavra jogo pensamos em futebol, vôlei, basquete, remo, carteado, porrinha, cuspe a distância, paciência. Todos são jogos. Existem diferentes coisas que os juntam. Futebol, vôlei e basquete têm bola como condição para o jogo. Remo, carteado, porrinha, cuspe a distância não tem. Futebol, basquete e remo são jogos coletivos e enfrentando adversários. Paciência é um jogo individual em que você joga sozinho e contra ninguém. Sendo diferentes, o que os juntam na categoria jogo? A combinação de diferentes características é o elemento que junta as práticas sobre o nome jogo.
Ou seja, para Eco, são um conjunto de características partilhadas por todos os tipos de fascismo o que define as práticas fascistas. Não há um fascismo puro, em essência. Todo fascismo nacional combina características fascistas distintas. E essa questão é central: as vezes o fascismo não tem cara explícita de fascismo. Cabe aos analistas perceberem se diferentes grupos reúnem ou não as teias que formam esse tecido maldito. Desse modo, iremos apresentar aqui características presentes nas diferentes experiências e proposições dos fascismos do passado e do presente.
São características do fascismo:
- Ecletismo – A teoria fascista é composta pela junção de aspectos de diversas teorias, das mais variadas origens. Não tem originalidade teórica.
- Antidemocracia e antiparlamentarismo – Para os fascistas, as disputas democráticas e parlamentares enfraquecem a nação e são dispensáveis. Assim, é preferível uma política autoritária, conduzida com mão de ferro para preservar a unidade da nação.
- Anticomunismo – Os fascistas são radicalmente anticomunistas, na medida, em que o comunismo consagra a busca por uma igualdade social mais radical possível. Os fachos creem numa desigualdade natural entre os indivíduos
- Culto ao líder – Nos fascismos, a figura do líder político é sacralizada. O Duce ou o Fuhrer tinham um caráter messiânico, eram líderes carismáticos que levariam a pátria a uma condição de superioridade em relação às demais nações
- Ultranacionalismo e xenofobia – Os fascistas cultivam um apego, um sentimento de hipervalorização dos valores e dos costumes da pátria e desprezo aos estrangeiros
- Militarismo expansionista – Nesses grupos, há uma exaltação da guerra como força purificadora e revigoradora, visando a expansão econômica e territorial da nação.
- Romantismo – Nos fascismos, há uma valorização da fé mística, do autossacrifício e um culto ao heroísmo como solucionador dos problemas nacionais
- Passadismo – Eles sempre pregam que resgatarão um passado mítico glorioso, uma era de ouro de um mundo idealizado (para o caso italiano, o retorno ao Império Romano e no caso alemão, ao Império Alemão pré – 1ª GM),
- Moralismo – Os fascistas se consideram os únicos capazes de restaurar a decência perdida pela modernidade
- Preocupação excessiva com a sexualidade, com a masculinidade que está ameaçada, com uma suposta fragilidade dos homens e uma masculinização das mulheres
- Anti-intelectualismo – Os fascistas desprezam as reflexões intelectuais e sua importância na sociedade
- Racismo – Os fascismos são racistas, pois pregam a superioridade de uma raça ou povo, justificando a dominação e até o extermínio de um povo
Lembrando que esta lista abrange características dos fascismos em geral, as vezes elas não parecem todas numa mesma configuração. Fique atento, se várias dessas características estiverem reunidos num grupo, é possível de estarmos diante de um grupo fascista.
***
Nesta terceira e última parte do nosso verbete, tentaremos responder algumas perguntas sobre aspectos polêmicos a respeito do fascismo.
“Existem fascismos hoje ou só existem os fascismos históricos?”
Embora essa pergunta possa parecer hoje uma pergunta banal, mas até o início do século XXI ela era muito séria. Durante a segunda metade do XX, parte dos historiadores e demais cientistas sociais acreditava que as experiências fascistas foram específicas do período entreguerras. Para eles, o fascismo e nazismo eram fenômenos específicos dos anos 20, 30 e 40, derrubados os regimes durante a Segunda Guerra Mundial, este tipo de autoritarismo estava encerrado, como o czarismo terminou com as Revoluções de 1917. Porém, com os movimentos neonazistas nos anos 1970 e a ascensão das experiências de extrema direita após a Crise de 2008, parece que as análises sofrem uma mudança, tornando o debate quase consensual de modo a perceber as continuidades entre os fascismos do início do século XX e os neofascismos recentes.
“O fascismo e o comunismo são ideologias irmãs?”
No Brasil dos últimos anos se popularizou a ideia de que o fascismo e o comunismo seriam dois fenômenos gêmeos, que ambos seriam regimes totalitários. Lembro a você, ouvinte, que a partir dos anos 1950, início da Guerra Fria, se desenvolveu a teoria do totalitarismo. Para alguns autores, fascismo, nazismo e comunismo seriam regimes que compartilhavam características que poderíamos chamar de totalitárias, como governo de partido único, a pregação de uma ideologia oficial, o controle social a partir de uma polícia terrorista, o monopólio do poder político, dos meios de comunicação, das forças armadas e da organização econômica. Ainda que na aparência os regimes possam ter elementos parecidos, vale o destaque que essas características se produzem por objetivos políticos completamente diferentes: o stalinismo estava preocupado em produzir o máximo de igualdade social possível; já os fascismos iam no sentido oposto, apostavam na mais brutal tentativa de demonstrar a desigualdade entre os humanos e a superioridade da raça pura. Fora que os fascistas em momento algum contestaram o modo de produção capitalista, já os stalinistas tentaram a construção de um novo modelo, ainda que de forma desastrada. Não há nada de irmãos siameses como certa ideologia liberalóide recente tentou propagar.
“O fascismo era anticapitalista?”
Encontramos em vídeos e outros materiais feitos por picaretas mais também por historiadores sérios menções a um suposto caráter anticapitalista do fascismo. Nessas análises se debate como anticapitalista uma formatação econômica em que o Estado aparece com grande força no processo de condução de políticas econômicas, na criação de demandas e até um certo controle sobre empresas privadas. Nada mais capitalista do que essas medidas. Os fascistas no poder alternaram medidas liberais e intervencionistas. Quando Mussolini chegou a poder, ele implantou medidas liberalizantes como privatizações e redução do papel do Estado na economia. Porém, com a Crise de 1929, as experiências dos fascismos italiano e alemão passaram a adotar fortes medidas intervencionistas. Durante os anos 1920 a 1940, as teorias econômicas liberais entraram em um momento de descrédito e ascendeu teorias fortemente intervencionistas, que criticavam a falta de regulamentação do mercado e não-participação do Estado na economia, como o keynesianismo. Se os fascistas alternaram fases de maior ou menor participação do Estado, eles nunca propuseram a criação de outro sistema econômico, nem mesmo nunca chegaram a ameaçar a propriedade privada. O fascismo nunca foi anticapitalista!
“O fascismo é de esquerda e ou de direita?”
Embora não pareça, essa é a maior de todas as polêmicas. Se criou no Brasil um debate que não se apresenta em lugar nenhum do mundo. Encontramos autores que tentam enquadrar os fascismos como terceiras vias, alternativas entre as direitas e as esquerdas, mas nunca como um movimento de esquerda. Essa teoria bizarra aparece em grupos reacionários brasileiros, tanto que Bolsonaro em 2019 falou no Museu do Holocausto de Israel que o nazismo era de esquerda. Coube ao Museu do Holocausto desmentir o presidente, afirmando ser o nazismo de extrema direita. Se é quase consenso que a versão alemã do fascismo é do campo da direita, de onde vem esse debate?
Podemos dizer que esse debate ganhou tração no Brasil por uma incompreensão do que separa esquerda e direita. A esquerda é um campo ideológico que prioriza a igualdade, já a direita prioriza uma “inigualdade”, uma compreensão de mundo em que a desigualdade é natural e positiva. E essa é posição clara dos fascistas. Preocupado com a decadência da nação, os fascistas pregam uma superioridade da nação e da raça (que para eles é quase a mesma coisa), onde claramente se colocam como desiguais e superiores autorizando a criação de ações inclusive de extrema violência, visando demonstrar essa superioridade. Logo, eles são não apenas de direita, mas de extrema direita.
Mas no Brasil a tese do fascismo de esquerda ganhou destaque a partir dos textos de Leandro Narloch. Nos seus Guias, Narloch consagrou um debate sem base teórica que nazismo e comunismo eram de esquerda pelo totalitarismo e pela forte participação do Estado na economia! Um espantalho, afinal não é o tamanho do Estado que define isso. Houve Estado grande para impulsionar o capitalismo, mas também para tentar destruí-lo. Mas essa teoria pseudocientífica ganhou ao longo do tempo difusão, fazendo que nós historiadores precisássemos enfatizar sempre que os fascismos são de extrema direita.
Bibliografia
MESQUITA, A. C. O que é fascismo? SP: Lafonte, 2020
TEIXEIRA, Francisco Carlos. Os Fascismos
BLINKHORN, M. Mussolini e a Itália Fascista
PAXTON, R. A Anatomia do Fascismo. RJ: Paz e Terra, 2013
SOUSA, Bertone de Oliveira. Nazismo, Socialismo e as políticas de direita e esquerda na primeira metade do século XX. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, v. 7, n. 14, p. 141-163, 2015.
Eu já fiz um vídeo pro nosso canal sobre o romance Inferno, do Dan Brown, você pode assistir ele aqui embaixo

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