Zumbi tinha escravos

REDAÇÃO: Pablo Bráulio*


LOROTA! – Essa afirmativa não encontra respaldo na documentação do período. Ainda que tenha havido pessoas escravizadas nos quilombos que integravam Palmares, certamente não seria nos mesmos moldes do colonialismo europeu. Historiadores têm diferenciado rigorosamente as formas tradicionais de escravidão (existentes em determinas regiões da África ou da Europa na Antiguidade) e o sistema colonial escravista, que foi abastecido, entre os séculos XVI e XIX, pelo comércio transatlântico de pessoas de origem africana. A narrativa em torno da afirmação de que “Zumbi tinha escravos” induz a audiência a acreditar que Zumbi fosse um escravocrata tal como os colonizadores de origem europeia. No máximo, poderíamos supor que os palmarinos reproduzissem modos tradicionais de vida africanos, nos quais poderia estar incluída a prática de manter cativos. Mesmo assim, essa é uma hipótese que não se pode provar a partir das fontes disponíveis.


O que detectamos

Ano após ano, no mês de novembro, profissionais que atuam na área de História precisam lidar com comentários maldizentes a respeito do Dia da Consciência Negra e acabam sendo instados a explicar aquilo que – num país em que as marcas da escravidão africana e do racismo estão em toda parte – deveria dispensar qualquer explicação.

E os argumentos contra a data são sempre os mesmos: “eu não vejo cor”; “assista ao vídeo do Morgan Freeman”; “isso é racismo reverso” ou… “Zumbi tinha escravos”. Esta última afirmativa é justamente o tema desta checagem.

Uma quantidade incontável de postagens e comentários na internet reproduz essa narrativa, quase sempre com a intenção de desmerecer o Movimento Negro, contestando o papel do líder do Quilombo dos Palmares na resistência à escravidão colonial.

Print de postagem no Twitter (12 nov. 2021)
Print de postagem no Facebook (20 nov. 2017)
Print de site católico. Texto original publicado por Ricardo José de Almeida sob o título “Zumbi dos Palmares – a farsa”, no site Recanto das Letras (26 jan. 2014)
Print de postagem em página monarquista do Facebook (20 nov. 2017)
Print de comentários em postagem na página do Senado Federal no Facebook (20 nov. 2015)
Print de postagem no Twitter no contexto da discussão em torno da estátua do Borba Gato (25 de jul. 2021)
Print de comentário no Twiter (15 nov. 2021)

Pois é! Esse discurso ganhou palco até na Fundação Palmares, autarquia federal criada para promover a afro-brasilidade, mas que está sob presidência do negacionista Sérgio Camargo desde 2019. Recentemente, Camargo defendeu a mudança do nome da instituição para Fundação Princesa Isabel.

Mais de uma vez durante a gestão de Camargo, a autarquia publicou textos criticando Zumbi dos Palmares. Em maio de 2020, por exemplo, um texto segundo o qual Zumbi seria uma invenção marxista foi veiculado no site da fundação e acabou sendo tirado do ar por determinação judicial. Camargo, que comunga da opinião do autor do texto, reagiu pelas redes sociais.

Print de postagem no Twitter (31 jul. 2020)

O texto veiculado no site da Fundação Palmares baseava-se principalmente em um artigo publicado pela revista Veja em 2015 (“Zumbi tinha escravos. E daí?”), onde o jornalista Leandro Narloch retoma alguns dos argumentos presentes em seu livro Guia politicamente incorreto da história do Brasil, publicado em 2009. 

No livro, diz o jornalista: “Zumbi, o maior herói negro do Brasil, o homem em cuja data de morte se comemora em muitas cidades do país o Dia da Consciência Negra, mandava capturar escravos de fazendas vizinhas para que eles trabalhassem forçados no Quilombo dos Palmares. Também sequestrava mulheres, raras nas primeiras décadas do Brasil, e executava aqueles que quisessem fugir do quilombo”. Esse texto foi o precedente para todas as manifestações posteriores contrárias às celebrações do dia 20 de novembro.

O que verificamos

Os argumentos de Narloch já foram rebatidos por vários pesquisadores ao longo dos últimos anos em inúmeros textos, reportagens, podcasts, vídeos e até livros e documentários. Portanto, essa checagem do PROJETO DETECTA não é mais nada do que um compilado das principais coisas que já foram produzidas nesse sentido.

Mapa da parte sul da Capitania de Pernambuco, com representação do Quilombo dos Palmares à direita. Frans Post, 1647 (Imagem: Wikimedia Commons)

O historiador Renato Pinto Venâncio, por exemplo, uma das principais referências em documentação do período colonial, publicou uma resenha sobre o livro de Narloch no site HH Magazine em 2018. Sob o título O incorreto no Guia politicamente incorreto da História do Brasil, o texto de Venâncio foi editado em formato de livro digital e publicado em 2021. 

A resenha é dividida em dez partes, em cada qual Venâncio disseca as distorções promovidas por Narloch. Na parte 2, dedicada à escravidão, Venâncio é taxativo: “não há suporte documental para se afirmar que Zumbi possuía escravos, mandava matar fugitivos ou sequestrava mulheres”. 

O historiador lembra que os palmarinos não deixaram escritos do próprio punho e não havia cartórios, tribunais e repartições públicas dentro dos mocambos. Segundo Venâncio, as poucas fontes escritas existentes sobre Palmares foram produzidas por holandeses, portugueses e fazendeiros, gente que odiava os quilombos e tentava o tempo todo provar que a vida ali era pior do que nas senzalas e que negros aquilombados eram bandidos ou representavam ameaças. 

Habitação de negros. Johann Moritz Rugendas, c. 1822-1825 (Imagem: Wikimedia Commons)

Essas fontes têm a sua legitimidade como registros do passado, mas precisam ser examinadas com desconfiança. Ou alguém supõe que um administrador colonial escreveria algo como: “parabéns aos negros que se rebelam contra nós, fogem de nossas fazendas, reconstroem suas vidas no meio da mata em seus mocambos e resistem aos nossos ataques”? 

Além de rebater vários outros pontos do guia politicamente incorreto, Venâncio já conseguia perceber convergências entre as ideias sobre Zumbi expressas no livro de Narloch e o movimento político que, naquele ano, alçou à presidência do Brasil um político de extrema-direita e em cujo governo um negacionista do racismo seria nomeado para a Fundação Palmares. 

A crítica da fonte é fundamental! Porém, numa sociedade racista como a nossa, é sempre mais fácil tomar partido dos colonizadores brancos do que buscar entender, a partir do cotejamento de outros vestígios, as sociedades que se constituíram dentro dos quilombos.  

No ano seguinte à publicação da resenha de Venâncio, surgiram duas produções em audiovisual que buscaram desfazer as confusões provocadas pelo guia politicamente incorreto. 

A primeira foi a série documental Guerras do Brasil.doc (abril e maio de 2019), cujo segundo episódio é dedicado à história de Palmares. O foco da obra não é se contrapor ao guia de Narloch, mas um pequeno trecho do episódio é dedicado à questão da escravidão nos quilombos, com depoimentos da historiadora Laura Perazza Mendes e do ilustrador Marcelo D’Salete (autor de uma graphic novel sobre Palmares). 

Quadro de Angola Janga, obra de Marcelo D’Salete, 2017 (Imagem: Editora Veneta)

A segunda é o documentário Legado Negado: a escravidão no Brasil em um guia incorreto (novembro de 2019), produzido pelo historiador e podcaster Icles Rodrigues, que reuniu um excelente time de especialistas, entre os quais pesquisadores que se dedicaram ao tema da resistência negra à escravidão no Brasil. O mérito do filme está em abordar a longa tradição historiográfica sobre Palmares e descortinar os vários problemas metodológicos, as imprecisões factuais e as estratégias discursivas de Narloch.

Silvia Hunold Lara, historiadora entrevistada em Legado Negado, afirma não existir informações claras na documentação sobre escravidão em Palmares. Segundo Felipe Damasceno, outro historiador que participou do mesmo documentário, o que as fontes portuguesas e holandesas descrevem é um controle muito rígido da população quilombola pelos líderes palmarinos, mas sem menções explícitas à existência de cativos.   

Zumbi em representação feita pelo pintor Antônio Parreiras, 1927 (Imagem: Wikimedia Commons/Museu Antônio Parreiras)

Então, de onde teria saído a ideia de que havia pessoas escravizadas em Palmares? A constatação de Narloch chega a ser simplória: Zumbi tinha escravos pois “quem viveu próximo do poder no século 17  tinha  escravos”. Mas, em seguida, o jornalista chega a desenvolver um argumento um pouco melhor, recorrendo a uma espécie de silogismo: em África, praticava-se a escravidão; os quilombolas procuravam reproduzir seus modos tradicionais de vida; logo, os quilombolas praticavam a escravidão. De fato, essa não é uma dedução ruim. Pelo contrário, parece muito pertinente. O problema aí está num ponto que Narloch não leva em conta: a escravidão africana era muito diferente da escravidão colonial. 

Os historiadores que estudam o escravismo ao longo da história costumam distinguir a chamada “escravidão moderna” (essa que se realizou no processo de colonização das Américas) da chamada “escravidão antiga” (aquela praticada nas sociedades europeias da Antiguidade, como Grécia e Roma, muito mais próxima do que existiu em diversas sociedades africanas pré-coloniais, como no Congo ou em Angola).   

Laura Perazza Mendes, no segundo episódio de Guerras do Brasil.doc, explica que a escravidão praticada no Congo-Angola vem de uma tradição para pagamento de dívidas ou de prisioneiros de guerra, algo difícil de equiparar com a escravidão para produzir lucros nos moldes do mercantilismo característico do sistema colonial europeu na América. 

Negros no fundo do porão, litografia de Johann Moritz Rugendas, c. 1830 (Imagem: Wikimedia Commons/Museu Itaú Cultural)

Em Legado negado, Rodrigues, Lara e Damasceno fazem uma análise da historiografia sobre o tema e mostram como a má interpretação de determinadas fontes (sobretudo traduções de relatos de expedições escritos por estrangeiros) podem ter levado alguns autores do século XX a sugerir a existência de cativos em Palmares, dando margem para as leituras equivocadas e distorcidas (por vezes, até mal intencionadas) de hoje em dia. 

Se fôssemos considerar somente a impossibilidade de atestar, por meio de documentos, que “Zumbi tinha escravos”, o PROJETO DETECTA poderia atribuir a essa afirmação a etiqueta “Carece de fontes” ou “Debate aberto”. Contudo, nos textos de Narloch (tal como nos escritos e postagens de outras pessoas que reproduzem seu discurso em sites – oficiais ou não – e nas redes sociais), fica implícita a ideia de que “Zumbi tinha escravos do mesmo modo que os colonizadores portugueses tinham escravos”. E isso seria uma falsificação da história.

Ao se enfatizar esse suposto dado em sua suposta biografia, deseja-se equiparar Zumbi aos colonos escravocratas e traficantes de gente que faziam do escravismo o seu negócio, inseridos que estavam numa lógica do mercantilismo contra a qual os mocambos representavam uma trincheira. Por esses motivos, optou-se pela etiqueta “Lorota!”.       

Busto de Zumbi dos Palmares em Brasília. Elza Fiúza, 2006 (Imagem: Wikimedia Commons)

Zumbi é um personagem complexo e a historiografia sempre demonstrou isso. Como nos mostram as obras escritas e audiovisuais mencionadas aqui, é difícil até mesmo atestar a existência de um único zumbi no contexto de Palmares. Tão difícil quanto acreditar que os líderes palmarinos defendiam valores contemporâneos de liberdade e igualdade (como ironiza Narloch) é acreditar que Zumbi fosse um escravocrata nos moldes do colonialismo europeu. Como toda experiência histórica, os quilombos não podem ser reduzidos a uma abordagem maniqueísta, mas não se pode negar sua importância na longa luta de resistência da população negra ao escravismo colonial.


*Pablo Bráulio é mestre em História e professor na Educação Básica.


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