A estrela da Heineken e o PT

A manchete é: “Presidente da Fundação Palmares diz que estrela da Heineken ‘é do PT'”. A notícia circulou no dia 28 de abril em vários veículos de informação. E não é coisa do Sensacionalista. Neste caso, a manchete foi extraída do jornal Estado de Minas.

Não é invenção da imprensa. Foi o próprio Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, que mandou essa aos quatro ventos em seu próprio perfil no Twitter. Aparentemente, ele ficou incomodado com o marketing inclusivo da cervejaria holandesa e associou o símbolo da marca ao Partido dos Trabalhadores.

Print de postagem (Twitter, 25 abr. 2021)

A fonte dessa associação provavelmente são as vozes na cabeça do declarante. Ou então o Sr. Camargo está muito mal assessorado. Basta levarmos em conta que, quando o PT foi fundado em 1980, a cervejaria Heineken já usava a estrela de cinco pontas pelo menos cem anos antes.

Segundo o site da empresa, a estrela de cinco pontas aparece no rótulo da cerveja pelo menos desde 1883. Já a jornalista Barbara Smit, autora do livro “A história da Heineken“, acredita que a estrela de cinco pontas esteja no rótulo desde 1867.

Segundo ela, naquele ano, o fundador Gerard Heineken teria aberto, em Amsterdã, um bar chamado De Vifhoek (O Pentágono), que tinha uma estrela pendurada na entrada. O preenchimento vermelho na estrela teria surgido muitos anos depois (provavelmente no início do século XX), para “distinguir a cerveja engarrafada na fábrica da Heineken da que era vendida por engarrafadores terceirizados”, ainda de acordo com Smit.

Smit lembra que, no contexto da Guerra Fria, quando a estrela vermelha passou a ser frequentemente associada a Cuba e à URSS, alguns diretores da cervejaria acharam melhor dar menos destaque ao símbolo para facilitar a expansão internacional da marca.

Variação dos rótulos da Heineken ao longo do tempo (Heineken Collection Foundation)

Em 2017, na Hungria, o governo nacionalista e ultraconservador de Víktor Orbán empreendeu uma cruzada para proibir o uso de símbolos associados ao comunismo e a regimes totalitários. A notícia foi publicada pelo jornal El País.

Naquela ocasião, a Heineken produziu uma peça publicitária explicando que estrelas são utilizadas por cervejeiros desde a Idade Média. Segundo o vídeo, as pontas da estrela da Heineken simbolizam os ingredientes da cerveja: água, cevada, lúpulo, fermento e um quinto elemento que compreende a “mágica do cervejeiro”.

Em comunicado, a companhia negou a associação do símbolo da cerveja ao comunismo. “Naturalmente, a estrela vermelha da Heineken não tem nenhum significado político e usamos os mesmos símbolos da marca em todo o mundo, em todos os mercados”, informava o comunicado.

Há poucos símbolos tão polissêmicos quanto a estrela de cinco pontas. E pintá-la de vermelho não ajuda muito na delimitação do seu significado. A história desse símbolo mereceria uma checagem mais completa do PROJETO DETECTA (fica a dica!). Modestamente, podemos oferecer aqui algumas pistas.

Estrelas de cinco pontas estão presentes em muitas sociedades e culturas há pelo menos uns 5 mil anos. Quem diz isso é o astrofísico Mario Livio. Segundo ele, “o fascínio dos céus se combinou com a matemática e a mitologia para produzir um dos símbolos mais comuns dos tempos modernos”.

A estrela de cinco pontas pode ser símbolo do microcosmos humano, do mundo espiritual, da orientação, da proteção divina, da fonte de toda luz, das cinco chagas de Cristo, da deusa suméria Ishtar, da atitude guerreira, da perfeição (número 5) etc. Algumas informações podem ser conferidas no site Dicionário de Símbolos.

Já a cor vermelha pode significar fogo, sangue, calor, sol, juventude, fraternidade, romance, paixão, poder, beleza e emoção entre tantas outras possibilidades, dependendo da tradição e da cultura. Confira o site Dicionário de Símbolos novamente.

O uso da estrela vermelha por movimentos de esquerda, partidos e regimes políticos ligados ao socialismo é apenas um dos muitos usos que se fez desse símbolo ao longo dos tempos. E mesmo esse uso, consagrado pela Revolução Russa, costuma ser explicado de várias formas: cinco dedos da mão dos trabalhadores, cinco continentes ou cinco setores que compuseram o movimento revolucionário de 1917. Uma reportagem do jornal Brasil de Fato traz mais informações sobre isso.

Como símbolo do partido comunista na União Soviética, a estrela representa a direção que operários e camponeses devem seguir. Também foi utilizada pelo Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial e se tornou emblema de movimentos contrários ao fascismo.

Soldado com bandeira soviética no Reichstag em 1945 (DW Brasil)

Já a escolha da bandeira do PT parece ter seguido critérios menos dogmáticos. Alguns relatos dão conta de circunstâncias até bem prosaicas, como numa crônica publicada no site da Fundação Perseu Abramo.

Mas, certamente, essa escolha bebeu na fonte de uma iconografia de esquerda que só se difundiu com vigor em meados do século XX. Já a fonte onde bebem os paranoicos continua sendo essas vozes estranhas e confusas que surgem em suas mentes.

O perfil do MarcBot no Twitter mencionou vários usos contemporâneos da estrela vermelha em logotipos de empresas ou em brasões e bandeiras de territórios que nada têm a ver com comunismo e nem com o PT.

Fontes e referências:

DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS. Verbetes “Estrela” e “Vermelho”. Disponíveis em: https://www.dicionariodesimbolos.com.br/.

HEINEKEN. Brewer’s Magic. Vídeo, 2017. Disponível em: https://vimeo.com/234893304.

HEINEKEN COLLECTION FOUNDATION. Heineken Label. Disponível em: https://heinekencollection.com/en/stories/heineken-label.

LIVIO, Mario. The Five-Pointed Star as a Symbol. Huffpost. 20 nov. 2014. Disponível em: https://www.huffpost.com/entry/the-five-pointed-star-as_b_6192742.

Presidente da Fundação Palmares diz que estrela da Heineken ‘é do PT’. Estado de Minas, 28 abr. 2021. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/nacional/2021/04/28/interna_nacional, 1261276/presidente-da-fundacao-palmares-diz-que-estrela-da-heineken-e-do-pt.shtml.

SMIT, Barbara. A história da Heineken. A cerveja que conquistou o mundo. São Paulo: Zahar, 2016.

Conteúdo publicado originalmente no Twitter do @MarcBot_, em 29 de abril de 2021.

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