Berigo | Medievalíssimo Drops

Entre a Lenda e a História

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Um dos momentos mais importantes para a formação do período chamado medieval da história do ocidente são as chamadas Migrações Germânicas, também conhecidas, de forma equivocada, na minha modesta opinião, como Invasões Bárbaras. É graças a entrada dos povos germânicos para dentro dos limites do Império Romano, seja como povos federados ou como cidadãos, é que a Idade Média passa a ser gestada. O feudalismo é tido como um exemplo de instituição mista de germânicos e romanos. Mas o que levou os germânicos, principalmente os godos, a se deslocarem do Norte da Europa para a região do Médio Danúbio e se assentar por essas terras? E aqui que entra Berigo, rei dos godos no século 3.

Oléo sobre tela Gizur Desafia os Hunos, de Peter Nicolai Arbo, datado de 1886

Segundo se conta, os godos abandonaram o seu local de origem por volta do século 3 e foram liderados por Berigo, ou Berico, as duas formas são usuais na historiografia, que os trouxe do litoral meridional do Báltico na Suécia até a bacia do Vístula, o maior rio da Polônia, na região que passou a ser conhecida como Gotiscandza. Berigo teria juntado seu povo em três navios, cruzado o Báltico e se instalado na Gotiscandza, onde atacaram os rúgios, povo nativo da região, e depois derrotariam os vândalos, povo que vivia nas regiões interiores do Vístula.

Mapa mostrando em verde e rosa a Scandza, em vermelho a bacia do Vístula e em lilás o Império Romano do Ocidente

Evidências arqueológicas entretanto desmentem essa narrativa, pois a transição da cultural Okyswie para à de Vilemberg foi pacífica, e sua cronologia consiste com o aumento populacional de indivíduos de origem escandinava se fixando na região em localidades sem sem nenhum população nativa. No século 16, o último arcebispo católico da Suécia Johannes Magnus, bispo de Uppsala, em sua história dos suecos e godos foi o primeiro a escrever uma canção conhecida como A Balada de Érico, cujo personagem central possui diversas semelhanças com Berigo. As historiografias positivistas e românticas tomaram o depoimento de Magnus como verdade, acreditando que se tratava de um relato oral transcrito pelo bispo, hoje, porém, sabe-se que a obra de Magnus não passa de invenção e gênio literário.

Ilustração de Johannes Magnus, sem data, anônimo, depositado na Skara Portait Collection

Ao certo não se sabe se Berigo é uma personagem histórica ou lendária, afinal, ele aparece na obra de dois historiadores do período pós-Império Romano do Ocidente, de um lado Cassiodoro, um dos conselheiros de Teodorico, o Grande, rei dos ostrogodos, herdeiro de Odoarco, primeiro rei da Itália e responsável pela Queda de Roma em 476. E por outro lado ele aparece na Gética, de Jordanes, um dos grandes historiadores bizantinos do século VI. Na Gética, Jordanes conta a história dos godos, contando desde sua saída de Scandza, uma ilha no mar Báltico até a vida de Teodorico, o Grande.

A dúvida sobre se Berigo se trata de uma personagem lendária ou histórica se dá pelo fato da origem de seu nome, segundo alguns autores ele derivaria da palavra gótica Bairika, que significaria pequeno urso, porém o historiador dinamarquês Arne Søby propõe que Cassiodoro teria inventado esse personagem para dar uma origem mítica aos godos, prática comum entre os historiadores romanos, diga-se de passagem, e que Cassiodoro teria dado esse nome a partir do nome grego Bérikos (Βέρικος, no original em grego), nome que pode ser latinizado como Berico ou Verico. Segundo o medievalista austríaco Herwim Wolfram, os outros dois reis góticos citados na Gética, Gadarico, o Grande e Filímero, seriam seus descendentes indiretos.

A história de Berigo nos mostra a dificuldade que medievalistas possuem ao trabalhar com um período sem uma vasta economia de fontes, porém a veracidade da jornada de Berigo é irrelevante, pois mesmo se lendária o que importa ao estudioso é o impacto de sua narrativa para o passado e o presente.

Retrato de Cassiodoro, Gesta Theodorici: Leiden, University Library, Ms. vul. 46, fol. 2r, datado de 1177

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