Sobrevivendo no Inferno (Racionais) | Clio Indica

A Bíblia do Rap Brasileiro em versão impressa

O Senhor é meu pastor, nada me falta. Ele me faz descansar em verdes prados, e águas tranquilas me conduz. Restaura minhas forças, guia-me pelo caminho certo, por amor do seu nome.

Se eu tiver de andar no vale escuro, não temerei mal nenhum, pois comigo estás. O teu bastão e teu cajado me dão segurança.

Diante de mim preparas uma mesa aos olhos de meus inimigos; unges com óleo minha cabeça, meu cálice transborda

Felicidade e graça vão me acompanhar todos os dias da minha vida e vou morar na casa do Senhor por muitíssimos anos .

Salmo 23, 1-6

Sobrevivendo no Inferno, do grupo de rap Racionais Mc’s, é uma transcrição do álbum homônimo, lançado pelo grupo paulistano em dezembro de 1997, com prefácio do professor Acauam Silvério de Oliveira (você pode conferir o currículo lattes dele clicando aqui), doutor em literatura brasileira, pelo departamento de literatura brasileira da USP, com pesquisa voltada para o campo da canção popular brasileira. Foi lançado em 31 de outubro de 2018, pela Companhia das Letras, após decisão da Unicamp em colocar o álbum na lista de obras de leitura obrigatória para o vestibular da universidade, decisão esta que causou grande discussão na internet, por protestos de influencers conservadores ligados aos movimentos de direita no Brasil. Taxando o álbum como “coisa de bandido” e apologia ao crime, tráfico e as drogas.

Já no prefácio, o dr. Acauam de Oliveira nos apresenta que a visão citada anteriormente é a mais pura falácia e que, os reprodutores de tais argumentos, muito provavelmente, não se deram o trabalho de ouvir a mensagem passada por KL Jay, Edi Rock, Ice Blue e Mano Brown.

OsRacionais Mc’s, autores do livro/álbum

Acauam problematiza e nos apresenta o contexto histórico em que o álbum é forjado. Um contexto de violência urbana, violência do policial, racismo, desigualdade social e preconceito nas “quebradas” de São Paulo dos anos 1980 e 1990, onde havia um crescimento vertiginoso das igrejas neopentecostais.

E foi vendo a importância e influência dessas igrejas, nas comunidades paulistanas, que os Racionais se baseiam para a formação do seu segundo álbum. Construído de forma litúrgica, as faixas são organizadas seguindo o roteiro de um culto de uma igreja neopentecostal. Onde se começa com os cânticos de louvor (Jorge da Capadócia), seguido da leitura de Gênesis (Gênesis), a leitura dos Salmos (Capítulo 4, Versículo 3), os testemunhos (Tô Ouvindo Alguém me Chamar e Rapaz Comum) e o grande relato (Diário de um Detento) contando sobre o Massacre do Carandiru em 1992. Por fim a tentação do diabo (Qual Mentira Vou Acreditar?) e o momento de reflexão e esperança (Mágico de Oz e Fórmula Mágica da Paz). O disco ficaria conhecido como a “Bíblia do rap brasileiro”. O livro ainda se deixa levar por essa ideia em seu design, simulando uma bíblia com sua capa preta e lateral dourada, como na maioria das bíblias neopentecostais.

Frame do icônico videoclipe para a música “Diário de Um Detento“, você pode assistir o clipe clicando aqui

A leitura é recomendada por conta do prefácio e pela oportunidade de se aprofundar na poesia de Mano Brown e Edi Rock. Poemas esses que como músicas salvaram a vida de centenas de pessoas, literalmente, e que infelizmente ainda representa a realidade socioeconômica das comunidades brasileiras, público para quem o álbum foi produzido, como é deixado claro ao decorrer do disco onde são citadas todas as “quebradas” de São Paulo e algumas do restante do Brasil, como podemos ver em:

Para os mano da baixada fluminense à Ceilândia eu sei, as ruas não são como a Disneylândia. De Guaianazes ao extremo sul de Santo Amaro, ser um preto tipo A custa caro.

Capítulo 4, Versículo 3 – Racionais Mc’s

E lembre-se: se o lugar onde você mora não é citado nesse disco você é privilegiado sim!

Ai moleque, me diz, então: cê quer o que?
O livro ta lá, esperando você.

Diário de um Detento – Racionais Mc’s

FICHA TÉCNICA

Nome: Sobrevivendo no Infenro
Autor: Racionais Mc’s
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 160 pp.

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