Ânsia Eterna

Ânsia Eterna é um quadrinho de Verônica Berta, baseado nos contos de Júlia Lopes de Almeida. Verônica faz um quadrinho curto e promissor ao utilizar da narrativa visual para ilustrar alguns dos contos de Júlia Lopes. Ela utiliza de cores muito vivas para chamar atenção do leitor, fazendo um diálogo perfeito entre as cores, as imagens e os diálogos.  Dessa forma, o que se pretende trabalhar com Ânsia Eterna?

O quadrinho ilustra três contos. O primeiro também chamado “Ânsia Eterna” fala sobre o fascínio de um rapaz ao encontrar uma moça no parque. Ele simplesmente fica hipnotizado com o olhar da jovem, até descobrir que ela é cega. O segundo chama-se “Os Porcos” se passando em uma fazenda onde encontramos uma mulher grávida no meio de porcos, e os animais são figuras simbólicas do seu pai. O terceiro e último é “A Caolha”, retratando relação entre mãe e filho, e a vergonha do rapaz ao longo dos anos pela sua mãe ser caolha.

O quadrinho transita entre gênero literário e visual e possui uma característica muito própria. Ele é rico em detalhes. Ao mesmo tempo que você está analisando as imagens, você está analisando os traços usados pela quadrinista, pelas cores ou não cores utilizadas e o impacto gerado no resultado final, como o diálogo ou pensamento dos personagens se relacionam com os desenhos. Identificamos o quadrinho como uma narrativa visual, com objetivo de trabalhar uma questão social. Verônica instiga o leitor da seguinte maneira: porque ela selecionou esses contos com estes personagens? Essas questões não são respondidas ao longo dos quadrinhos. Ela te prende pelas cores vibrantes, pelos traços delineados e pelas expressões que ela usa para os personagens, mas essas escolhas trazem uma problemática muito necessária. No final de de Ânsia Eterna, a autora apresenta Júlia Lopes de Almeida. Era uma mulher muito engajada para o seu tempo, abolicionista e preocupada com a causa das mulheres, mas não deixa de ser racista com os personagens na construção de seus contos. A mulher negra é tratada como uma “coitada”, que não encontra refúgio e nem força de vontade.

O nome do quadrinho não foi escolhido a toa. Além da questão racial levantada por Verônica, ela selecionou os contos e as cores pensando exatamente na sensação ao vê-los. A maior parte da leitura é realmente angustiante e a forma como termina os contos é de fato impactante, gerando um desconforto contínuo. Toda vez ao lê-lo é o mesmo desconforto, a mesma angústia. Isso é crucial no quadrinho, pois os contos estão eternizados pelos sentimentos que eles transmitem. O trabalho realizado nessa obra é realmente incrível e sua leitura pode ser uma boa base para compreender o diálogo existente entre o quadrinho e a literatura, e como ambas funcionam perfeitamente juntas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s