A Menina Que Roubava Livros (Markus Zusak) | Clio Indica

A Leitura Como Resistência ao Horror Nazista

A cultura nordestina, na literatura, teve grande difusão pelo autor Ariano Suassuna (1927-2014). O escritor, principalmente em seu Auto da Compadecida (que pode ser adquirido clicando aqui), livro em que conhecemos a história de dois amigos, Chicó e João Grilo, vivendo peripécias no sertão para garantir sua própria sobrevivência, nos apresentou muito da miséria do sertão nordestino e também das esperanças que os cabras tinham na vida, apesar dos pesares.

Particularmente um dos livros mais fascinantes que tive contato foi A Menina que Roubava Livros, escrito pelo australiano Markus Zusak, publicado em 2005, e lançado no Brasil pela editora Intrínseca. Antes mesmo de falar do livro, é importante falar um pouco da vida de Zusak, que está diretamente ligado com a produção de sua obra, afinal ele decidiu escrever o livro partindo das histórias vivenciadas pelos seus pais durante o período nazista na Europa. Sua mãe vivera em uma pequena cidade na Alemanha onde aconteceu a Marcha da Morte, e ela também contou como foi o bombardeio de Munique.

Dessa forma, podemos partir para a incrível história que desenvolveu na obra em questão. O livro é narrada pela morte, que acompanha a vida da protagonista, Liesel Meminger, uma menina que mal entrou na adolescência. Após a morte do seu irmão mais novo, ela rouba seu primeiro livro: O manual do coveiro. Sua mãe a leva para a cidade fictícia Molching, onde sua mãe a entrega para uma família para adotá-la. Lá, ela vive com o casal Hans e Rosa Hubermann, que enfrentam uma difícil situação financeira, eles mal conseguem dinheiro para comer, mas acolhem Liesel. Ao decorrer da história, vemos como ela estabelece laços em seu novo lar, principalmente com Hans, que se torna uma figura paterna para a menina. Ela frequenta a escola e cria novas amizades, em especial com Rudy. Conforme decorre a história, Liesel rouba outros livros, e esses livros, mesmo com temáticas muito diferentes e que nada condizem com o gosto de uma pré-adolescente — afinal, não podemos acreditar que uma menina com pouco mais de 10 anos leria um manual para coveiro — a relação que ela cria com esses livros são como refúgio de toda a realidade difícil ao qual ela se encontra. Ela perde seu irmão mais novo e acaba perdendo sua mãe, pois ela está sendo perseguida e prefere deixar a segurança de sua filha com outra família. Além disso, ela acompanha toda a truculência do regime nazista. Diariamente ela via a marcha dos judeus na pequena cidade em que vivia com sua nova família, e nessas marchas os judeus eram também ofendidos e apedrejados por moradores locais. De fato, essa marcha aconteceu durante o regime nazista alemão,como forma de deslocamento desses judeus nos campos de concentração. Praticamente todos esses judeus já estavam sentenciados a morte, então realizavam a transferência deles toda a pé pois pensavam em “economizar” gastos com esses deslocamentos, que aconteciam em muitas zonas residenciais.

O australiano Markus Zusak

Partindo da narração da morte com o olhar inocente de uma menina ao meio um ambiente caótico, é impossível não se emocionar com essa história. A família de Liesel acaba refugiando um judeu, Max, ao qual ela também cria uma forte amizade. Passado algum tempo, ele acaba saindo da cidade por segurança própria e da família. Liesel é uma menina muito sensível. Ela gosta de ouvir as histórias de seu novo pai, de roubar comida com seus novos amigos da escola e roubar livros e lê-los escondidos, afinal eles são sua principal fonte de lazer e fuga. O maior desfecho e o mais tocante, de fato, é o final da história. Na pequena cidade em que vivia, todos já revezam algumas noites em um sótão para se protegerem dos possíveis bombardeios que ameaçavam a cidade. E em uma noite específica, quando todos estavam dormindo em suas casas, Liesel foi a única a ir para esse sótão terminar a leitura de seu livro. Com o amanhecer, ela saiu do sótão e encontra a cidade devastada. Ela não podia imaginar que nessa mesma noite a cidade foi bombardeada e todos morreram, inclusive sua família e seus amigos.

Finalizando a história, Liesel já é adulta com sua própria família e reencontra Max, o rapaz refugiado que criou uma amizade quando mais nova. O livro traz à luz um fragmento, mesmo que mínimo, da atrocidade que foi a Segunda Guerra Mundial e o regime nazista. Mesmo sendo uma ficção, sabemos que o autor se baseou em experiências reais para consolidar sua história. Nos sensibilizamos com Liesel e com sua trajetória, compreendemos todo seu fascínio com a leitura e nos impactamos com seu final ao lado dela. A morte conta a história de Liesel e a acompanha em todo seu trajeto de modo muito tocante.

Acredito que seja um dos livros mais lindos que eu já li.

Cena da adaptação cinematográfica de A Menina que Roubava Livros, onde Liesel é vivida pela atriz canadense Sophie Nélisse

Ficha Técnica

Nome: A Menina Que Roubava Livros
Autora: Markus Zusak
Editora: Intrínseca
Páginas: 480

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