Por que Continuar Lendo Quadrinhos?

Uma defesa da leitura da nona arte

Arte incrível de Alex Ross para a minissérie O Reino do Manhã, escrito por Mark Waid e ilustrada por Alex Ross

Se há uns 20 anos atrás o Bruno hodierno se encontrasse com o Bruno pretérito e os dois conversassem sobre a marcha inexorável do tempo, e suas indeléveis marcas na vida cotidiana, o Bruno pretérito ficaria muito espantada com a afirmação do Bruno hodierno que ele ainda lê histórias em quadrinhos, principalmente histórias em quadrinhos de super-heróis. Acho que o Bruno pretérito esperava que o Bruno hodierno, ainda mais inserindo o recorte do hoje literal, esperaria que ele apenas lesse alta literatura, historiografia embasada em rituais teóricos e acadêmicos complexos, filosofia ontológica francesa e contemporânea…

Ilustração de Joe Sacco para a sua obra Palestina

Ah, como somos ingênuos na mocidade!

Muita gente, em especial os conhecidos apenas superficialidade aparente, mas sem excluir os íntimos, acha estranho, deveras estranho, eu gostar de coisas, aparentemente, tão difusas como Wolverine: Velho Logan e os Ensaios Céticos, do inglês Bertrand Russell (você pode comprar ambos com desconto na Amazon aqui e aqui respectivamente).

Mas a vida, essa marcha inexorável e imparável do tempo, acontece e o que eu podemos fazer?

Mais uma ilustração de Alex Ross, agora retratando a Santíssima Trindade da DC Comics

Antes de tudo, é preciso explicar que há muito tempo os quadrinhos não são um amontado de asneira nacionalista ou ideológica, ou seja, um mero instrumento de veiculação de propaganda para certos governos. As histórias dos heróis vêm se aproximando de um tom mais realista, abordando assuntos do cotidiano e com profundidade dramática e narrativa cada vez maiores. Para os mais jovens, adolescentes e jovens adultos, principalmente os coetâneos, aqueles que um dia construirão o futuro, é na mitologia dos heróis e nos games é que estão os grandes depósito e espelho narrativo de sua geração. E não é à toa: a televisão e o cinema, e até certo ponto a própria internet, cada vez mais retratam o jovem contemporâneo como um modelo pronto e acabado, o que está longe da realidade dos mesmos, não entendendo a realidade existencial na qual os mesmos estão inseridos.

Isso se dá muito porque a indústria cultural — aqui entendia como o ramo econômico da produção cultural e não como a tipologia criada pela Escola de Frankfurt — entende os jovens do presente simplesmente com um público e mercado consumidor meramente passivos, depósitos de qualquer tipo de produção que alguém lhes digam ser de seu interesse. O bolso no presente, a alma no passado, assim podemos definir a forma metafórica assumida por essa mesma indústria cultural.

Kamala Khan, a atual Miss Marvel no universo oficial da Marvel Comics, mostrando como os quadrinhos de super-heróis podem, e devem, conversar com temas atuais e realistas

Eu continuo a lendo quadrinhos pelos mais diversos motivos, gostaria de expor alguns abaixo:

  1. Talvez o motivo mais importante e relevante: leio porque gosto, aliás meu gosto por quadrinhos tem a mesma raiz pelo que gosto de mitologias de forma geral: acredito que é nos mitos, principalmente aqueles que sobrevivem ao tempo, onde encontrarmos o que há de mais intrínseco e basal no que se refere a psiquê humana. É através das narrativas ficcionais com um modelo alegórico e moralizante que nos inserimos no mundo. Não é de graça que diversos estudos e pesquisa já foram feitos sobre a aproximação dessas duas realidades, a mitologia e a nona arte;
  2. Um outro motivo para continuar gostando de super-heróis é toda a áurea de mistério e encantamento que há nas histórias em quadrinhos, um super-herói como o Batman, ou o Demolidor, por exemplo, pode ser visto sob os mais diversos prismas e analisados de tantas maneiras quanto um bom filme ou livro popular;
  3. Defendo a leitura dos quadrinhos também pelo deles serem uma verdadeira porta propedêutica para a leitura. Quantos de nós, leitores, não começamos a ler através da Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e Chico Bento? Quantos de nós brincamos, e deixamos nossa imaginação voar, de Batman, Homem-Aranha ou Superman (na minha época, Super-Homem)? Quantos de nós não vimos um paralelo entre aquele nosso chefe chato e arrogante com o Doutor Destino (tá, acho que fui deveras nerd agora)?
Os X-Men, quadrinhos que eu mais li quando adolescente, desenhados pelo grande John Byrne

Se o Bruno pretérito tivesse um pouco mais de sabedoria, essa que só pode ser apropriada com o acúmulo do processo histórico e da consciência histórica (veja aqui um vídeo meu sobre o que é consciência histórica), infelizmente, perceberia que é apenas natural continuar a lendo quadrinhos, desde que o hábito de leitura não seja resumido a apenas a leitura quadrinhos, e mesmo assim, dentro do gênero apenas de volumes de super-heróis.


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