RR#41  A mulher de pés descalços. Mukasonga

Sobre a autora

 Scholastique Mukasonga nasceu em 1956 e é franco-ruandesa. Vive e trabalha atualmente na região da Baixa Normandia, na França. Ela tem formação em Serviço Social e já ganhou diversos prêmios literários.

Sobre o livro

 ele é em formato pequeno, quase edição de bolso, mede 112 x 180 mm, tem as folhas em papel pólen, as folhas são levemente amareladas. A fonte é muito agradável para leitura. Tem a capa, orelhas quase do tamanho da capa da obra com informações sobre a obra e a autora. A editora fez um bom trabalho de edição e tradução.

Resenha

 ‘A mulher dos pés descalços’ é a segunda das obras de Scholastique e foi uma homenagem à sua mãe, Stefania, e a todas as mulheres de Nyamata, capital da província de Bugeresa (Ruanda), que se dedicaram à sobrevivência de seus filhos da morte certa.

O livro nos oferece um retrato das tradições e da vida cotidiana em Ruanda. Ela conta episódios como um livro de memórias que estão conectados como uma teia, as personagens centrais sempre formam parte do todo narrado por Scholastique que escreve de uma forma bastante acessível e próxima de quem está lendo seu romance.

A obra tem uma ligeira apresentação e em seguida inicia seus 10 capítulos que contém títulos muito significativos para a cultura e tradição que ela busca destacar em todo o livro. Há o capítulo “O Pão”, por exemplo, em que ela vai nos mostrar como um item tão básico para a alimentação de várias sociedades poderia ser uma rara iguaria para a vida das famílias refugiadas na longínqua Nyamata. Esta e outras tramas vão se formando a cada capítulo trazendo, além da clara centralidade a uma história das mulheres ruandesas, a sempre extenuante tensão de de se viver como uma etnia vilipendiada, sufocada e marginalizada.

Os homens só deixavam as migalhas

p.134

Para quem não sabe, em Ruanda houve sempre uma rivalidade importante entre Hutus e Tutsis. Ocorre que, graças ao processo colonizador e imperialista, os primeiros tiveram forte apoio para dizimar os segundos. Quando não se tratou de um genocídio (massacres de 1959 e 1963), se objetivou de isolá-los em regiões sem estruturas, inóspitas, como sertões, longe da capital, que foi o caso das famílias enviadas para Bugeresa, conforme foi a história real da Scholastique.

Os brancos jogaram para cima dos tutsis os monstros famintos de seus próprios pesadelos. Eles nos ofereciam espelhos que distorciam a farsa deles, e, em nome da ciência e da religião, nós tínhamos de nos reconhecer nesse duplo perverso nascidos de seus fantasmas

p.121.

‘A mulher dos pés descalços’ é uma versão importante sobre a história das mulheres, uma forma de estudar mais aspectos da cultura ruandesa e, portanto, africana, sendo um registro histórico, também sobre a sobrevivência da etnia dos tutsis diante de um cenário hediondo de mortes e ódio. Ainda que muito sensível às suas narrativas e memórias, não são comparáveis à sua outra obra, premiada, ‘Baratas’, que era justamente como os Hutus se referiam à sua etnia no contexto histórico.

A editora Nós tem uma vasta coleção com as obras da autora. Vale a pena espiar.

Para saber mais

Insta da autora: @scholastiquemukaso
Site da autora: https://scholastiquemukasonga.net/en/ 

Entrevista com Scholatique em 2010 Le Monde: https://www.lemonde.fr/livres/article/2010/04/15/scholastique-mukasonga-l-ecriture-comme-un-linceul_1333890_3260.html 

Wiki (em inglês): https://en.wikipedia.org/wiki/Scholastique_Mukasonga

Editora Nós: https://editoranos.com.br/nossos-autores/scholastique-mukasonga/

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