“Batalha de Caiboaté: Episódio Culminante da Guerra das Missões” (Ptolomeu de Assis Brasil)

Uma resenha crítica

“O trabalho da terra, agricultura, em cujo trato o homem lavrando e criando, mais se aferra ao solo; a educação pertinaz, diuturna, com que os jesuítas conseguiram formar um subconsciente de submissão aos seus ditames nos hábitos e atos dos guaranis das Missões; as ordens e instruções com que estes agiam, votando ódio aos portugueses e desprezo a quem quer que fosse, estranho à língua deles, única que lhes permitiam os jesuítas conhecer; a convicção de que habitavam terras de sua propriedade concedidas por Deus e os seus padres, além de outros fatores: tais as causas que os levariam em breve à sublevação absurda e ao sacrifício inglório. Demais, bem sabiam, uns por experiência própria, outros por sinistra tradição quão duro, cruel, fora o tratamento imposto aos confrades expulsos das reduções de Guairá pelos paulistas, ou mamelucos (mestiços de índios e brancos) a quem, ora, ter de se submeter e escravizar”

Jesuítas, Bandeirantes e Povos Indígenas: Brasil, Argentina e Uruguai após a União Ibérica

A Guerra das Missões refere-se a conflito armado que colocou em oposição de um lado as duas coroas ibéricas e de outro jesuítas e índios guaranis situados na região meridional do Brasil, nos Sete Povos das Missões (atual estado do Rio Grande do Sul). A Batalha de Caiboaté (hoje município de São Gabriel) no ano de 1756 correspondeu ao momento culminante e final do conflito, se é que se pode dizer que houve “batalha”, mas antes um massacre: foram 1.400 índios mortos e 127 feridos, enquanto houve quatro mortos portugueses e três espanhóis. Seja como for, a resistência guarani foi e é cultivada na memória do povo do Rio Grande do Sul especialmente através da figura de Sepé Tiaraju, líder militar dos índios insurgidos, referido em documentos como índio de insólita bravura e morto no campo de batalha.

Costuma-se situar as guerras guaraníticas no contexto de demarcação territorial das colônias portuguesas e espanholas a partir do Tratado de Madrid (1750), mas é certo que os conflitos envolvendo jesuítas e colonos já existiam ao menos desde meados do século 18. De um lado colonos paulistas organizavam entradas no sertão à caça de ouro e da mão de obra escrava; em território espanhol o trabalho escravo é organizado através das ecomiendas. Apesar da oposição do jesuíta, os índios eram caçados e transformados em cativos em São Paulo: 16 fundações jesuítas foram tomadas e destruídas entre 1630 e 1638 por bandeirantes dirigidos por Raposo Tavares. Importante salientar que o avanço bandeirante consolidou a criação de rotas, arraiais e posteriormente vilas nos estados do Brasil meridional, do atual estado do Paraná ao Rio Grande.

De outro giro, questão tormentosa e eivada de tensões foi a definição dos limites territoriais do sul do Brasil, Uruguai – cuja área de Colônia do Sacramento pertencia à coroa lusitana – e Argentina. A fundação da Colônia do Sacramento em 1680 engendraria conflito militar entre súditos portugueses e espanhóis – é importante destaca-lo pois foi neste conflito que os jesuítas espanhóis conseguiram licença pela primeira vez para aparelhar os índios com armas de fogo.

A indefinição dos limites de fronteira era corroborada pelo Tratado de Tordesilhas assinado em 1457, antes do achamento do Brasil, quando sequer se sabia que a extensão territorial da América à oeste do Meridiano de Tordesilhas. Em 1750 é assinado o Tratado de Madrid que atribui a Portugal os Sete Povos das Missões, e aos espanhóis a Colônia do Sacramento.

Pelo tratado cada parte deveria evacuar o território antes de entregá-lo. E a situação dramática se instaura diante das inúmeras missões jesuíticas nas regiões que perfaziam um montante de 30.000 íncolas. As missões jesuíticas deveriam ser desocupadas, portanto. Já os povos das 7 missões, muito influenciados pelos padres, demonstraram disposição em resistir em armas antes de entregarem suas terras: os índios diziam que Deus os havia concedido aquelas paragens e só Deus poderia de lá tirá-los.

É interessante destacar como eram as reduções dos jesuítas. Não existia naqueles lugares uma espécie de paraíso coletivista como pode parecer a alguns. O trabalho na lavoura e a participação de missas e atividades religiosas eram obrigatórios. A embriaguez e a ausência nas missas eram castigadas com açoites e detenção. As aldeias eram dirigidas pelo superior hierárquico jesuíta a quem todos deviam total obediência.

Criava-se gado, lavouras de cereais, legumes, algodão, trigo, linho, milho e mandioca.

“Constituía dever fundamental no instituto Inácio de Loiola a convicção, por parte de seus missionários, de serem tidas como serviço de Deus as árduas e incruentas tarefas de que eram incumbidos. A sua palavra evangelizadora devia ser ouvida em lugares arriscadíssimos, ermos, onde quer que aproveitasse ao seu objetivo capital: catequizar sob a crença no cristianismo, reduzindo à civilização os índios selvagens, agremiando-os em centros mais ou menos populosos. À submissão das tribos seguia-se a sua localização em regiões previamente escolhidas. Como é sabido, todas estas aldeias eram edificadas em belíssimos sítios e obedeciam a um plano geral de construções feitas pelos íncolas sob a direção dos jesuítas. Dispunham de praça, igreja, colégio (residência dos curas), escolas, casas, moradia, armazéns para depósitos de colheita, oficinas, cemitério, etc.”

Para a atividade pedagógica os jesuítas se serviam da música e da dança: para os povos indígenas era mais fácil aprender desta forma do que por meio da prosa falada.

Sobre a natureza do temperamento indígena, o tema é controvertido. Fala-se muito da indolência do íncola mas é certo que os mesmos eram capazes de efetuar grandes esforços e dar muito de si, inclusive lutando e resistindo às tropas portuguesas e espanholas em armas. Consta que sabiam “sofrer na doença e na morte. O verdadeiro bravio era insensível”.

Pela diferença numérica e desequilíbrio de recursos, a tática dos guaranis fora parecida com a de uma guerrilha: evita o enfrentamento direto e derradeiro com o inimigo, com a criação de emboscadas de modo a atacar e matar pequenos grupos isolados, além da destruição de campos e passagens. Uma tática comum era deixar em campos abertos reses de boi ou carneiro para que alguns pequenos grupos os fossem buscar, quando eram então atacados por indígenas escondidos nas matas.

A destruição da resistência guarani em Caiboaté foi o prenúncio da expulsão dos jesuítas do Brasil, o que ocorreu durante o período pombalino. Com a destruição das missões, muitos índios se dispersaram e voltaram ao estilo de vida anterior ao das Missões. O Tratado de Madrid não foi plenamente concretizado e o grupo de demarcação dos territórios sequer logrou terminar sua tarefa de mapeamento e divisão dos territórios.   


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